Luís Giffoni mundo afora

Posted on 26/11/2014

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Luís Giffoni aprecia longas caminhadas (longas mesmo, com mais de cem quilômetros). Enfrenta feliz da vida dias e semanas em trilhas inóspitas pelo mundo afora. Não é o tipo de atividade que tenha a preferência de seus amigos, mas é bem provável que também eles apreciem alguns dos frutos dessas aventuras: as crônicas que Giffoni escreve sobre elas, muitas reunidas no simpático “O acaso abre portas” (Abacatte, 2014).

Em menos de 80 páginas, somos levados por Giffoni aos Andes peruanos, às pirâmides de Gizé, a um hotel nas trilhas do Nepal, a um palácio real no meio da cordilheira do Himalaia e uma curioso vilarejo nascido em cima do encontro de placas tectônicas. O cronista, que prefere a pluralidade e teme a uniformidade cultural, descobre que o comportamento mundo afora se assemelha, que certas atitudes jamais mudam, e que “mesmo no deserto inóspito, a fantasia viceja” e “mesmo na solidão, o amor tenta brotar”.

Atento ao que acontece no mundo, Giffoni também reage com bom humor a algumas tendências modernas, como a supervalorização das estatísticas, a proliferação das fobias, o culto aos músculos ou a corrida por um tablet – do alto da sua vivência, diz que já viveu esse oba-oba antes. Com fina ironia, constrói pequenas fábulas como “Ópera dos loucos”, “O turista da galáxia” e “Alá não é iraniano”, todas com aguda percepção da nossa condição humana. Interessa-se pelas aventuras da paixão e pelas questões metafísicas, como os riscos da eternidade e os erros da ciência.

Especialmente marcantes são as construções de “O coração da casa” e “Fio da meada”, líricas, poéticas e sensíveis. Como costuma acontecer aos cronistas, também está lá uma crônica à passarinho, embora “Psicanálise de um tico-tico” não represente uma relação das mais amistosas. E em todas as suas observações se destaca uma prosa elegante e precisa.

No último texto, Giffoni se questiona sobre o que é uma crônica e afirma desconhecer o ofício que pratica. Mas faz isso enquanto caminha observando a diversidade humana, a principal matéria de todo cronista. Embora nessa altura da leitura já seja possível perceber que, se não sabe o que é uma crônica, ao menos o escritor intui muito bem, é possível retornar então ao primeiro texto para encontrar uma resposta possível: a crônica é um exercício permanente de semear fantasia e leveza para que, talvez, venha a colher alguma realidade.

E “O acaso abre portas” é uma boa colheita.

Henrique Fendrich

Trecho da obra:

“Feliz da vida, sem conforto, enfrento doze, quinze dias em trilhas no meio dos cafundós sem nome. A maioria de meus amigos acha isso um programa indigesto e costuma rir de minha escolha. Dizem: gosto não se discute, lamenta-se.

Meses atrás, fui conhecer, nos Andes peruanos, a montanha eleita a mais bela do mundo, o Alpamayo. Coberta de gelo, ela lembra uma pirâmide de marshmallow com quase seis mil metros de altura. Ou um gigantesco picolé de açúcar de confeiteiro.

Cheguei até sua base, a mais ou menos cinco mil metros. Planejei levar um filho e  três amigos. Quando pesaram as dificuldades do caminho, todos desistiram. Um a um, acovardaram-se. Houve quem me perguntasse se por lá havia hotel cinco estrelas. Acabei me aventurando sozinho, com um guia local”. 

acaso-portasO acaso abre portas – Luís Giffoni

Abacatte, 2014, 82 p., R$ 31

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