Carpinejar, do rádio ao papel

Posted on 25/11/2014

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(Imagem: Maurício Capellari/Divulgação)

Se a crônica, fruto do jornal impresso, já ganha do seu veículo de origem a agilidade na linguagem, tanto mais quando ela é transposta para as ondas radiofônicas. O texto para rádio precisa ser ainda mais enxuto e pontuado por períodos curtos e palavra precisas. Fabrício Carpinejar vem fazendo esse exercício há algum tempo para a Rádio Gaúcha: durante dois minutos, faz uma crônica em que tenta contar uma história e provocar uma reflexão no ouvinte. Agora ele selecionou 120 desses textos (os que privilegiam “acento coloquial e simplicidade comunicativa”) e com eles formou o ótimo “Curinga – 120 segundos de sabedoria cômica” (Arquipélago Editorial), seu mais novo lançamento.

Nesses textos rápidos, Carpinejar continua discutindo alguns dos seus temas preferidos, sobretudo os que nascem das complicadas relações entre homem e mulher. Criado pela mãe, feminista de carteirinha, o cronista observa que o homem está desaparecendo, fala sobre paixão e separação, discute o papel de cada um nos relacionamentos e todos os assuntos que nascem da complicada arte de morar junto.

Não apenas os conflitos entre casais, mas também os dos pais com seus filhos (especialmente adolescentes) fazem parte da temática do cronista para conquistar os seus ouvintes e, agora, os seus leitores. Os textos são, em geral, bastante próximos à realidade de seu público, o que deve facilitar a identificação. O cronista percebe e se insurge contra algumas tendências modernas, como os ansiolíticos ou os consultores para qualquer coisa, e em tudo sugere uma saída mais humana ou poética.

Alguns textos, provavelmente pensando no formato radiofônico, são listas de coisas que exemplificam una opinião do autor, como as características de um paizão, as pequenas mentiras que contamos, ou os sinais de que você passou da conta. São textos divertidos e bem-humorados, e mesmo naquilo que critica Carpinejar consegue passar a sua compreensão.

Funcionam, pois, também no papel.

Henrique Fendrich

Trecho:

“A dieta de sua mulher é uma decisão de condomínio.

Não é uma decisão pessoal, esquece. É uma decisão da família!

Você vai participar da dieta dela. À força. Na marra. Querendo ou não querendo.

O primeiro efeito é a geladeira vazia. É pior do que geladeira de solteiro, que só tem sachê de mostarda, maionese e catchup.

A geladeira de uma mulher fazendo dieta é casa abandonada. Só mato. 

Ao sentir fome terá que fugir ao supermercado. Mas, quando chegar com sacolas e sacolas na porta, ela dirá que você não está colaborando. E vai correndo para o quarto chorar.

Porque dieta é uma segunda TPM.” 

curingaCuringa – 120 segundos de sabedoria cômica

Fabrício Carpinejar

Arquipélago Editorial, 2014, 226 p., R$ 34,90 

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