Notícias da chácara (Domingos Pellegrini)

Posted on 24/11/2014

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

PALMEIRA real não tem a altura da imperial mas também não é fina como palmito. Plantamos meia dúzia rente ao muro da frente, e agora a mais robusta e alta delas soltou seu cacho de flores. Gente pare, plantas florem, mas nenês choram, flores perfumam.

BRANQUINHA sumiu de novo, decerto escapando pelo portãozão eletrônico quando alguém saiu de carro. Mas desta vez voltou logo. Bravo latiu, Dalva falou “será que é ela?”, e era, toda serelepe, chispando para dentro quando abri o portãozinho, e foi esconder a culpa atrás de um arbusto. Depois chegou-se manhosa, o rabo mal abanando, até receber o primeiro carinho e tornar-se a Branquinha de sempre, mais saltitante e feliz que bicho de desenho animado. Agora temos de olhar bem quando saímos com carro, para ver se ela não sai atrás, esperta que só. Deve ter saudade da rua, onde viveu antes de ser adotada. E voltou meio marronzinha, demos banho, voltou a ser Branquinha.

BRAVO, cada dia mais velho (só ele?), só quer saber de descansar. Passa os dias deitado, mas basta alguém esticar o braço para tocar a campainha, ele já está correndo e latindo até o portão. Deve ter uma sensibilidade auditiva extraordinária. Rojão espouca longe, ele corre para dentro de casa. Coriscos ainda no horizonte, mal a gente ouve os trovões, mas ele já está de rabo baixo se enfiando debaixo da mesa. Se aqui houvesse terremotos, Bravo decerto seria o primeiro a saber.

RECEITA de bifão de pernil em chapa grossa. Pode ter até dois dedos de grossurra. Deixe esquentar bem a chapa, só então unte com manteiga ou azeite, deite o bifão, cubra com tampa de panela, fogo médio. Salgue só quando virar, podendo também temperar com pimenta-do-reino e/ou mostarda em grão moídas ou com o que quiser. Volte a tampar, deixe assar bem, depois é só destampar e comer. Não fica ressecada e gasta-se muito menos gás e tempo do que se fosse no forno.

ACEROLEIRA, plantada há um ano, já dá sua primeira carga. Tínhamos um pé de acerolas, que cortamos porque ninguém comia nem colhia, e também receosos pelos netinhos, pois os galhos e folhas, quando a gente colhe sem cuidado, dão uma coceira danada nos braços. Agora colhemos, guardamos na geladeira e vamos fazendo suco com laranja e mamão, que delícia (mas é preciso coar, a vida é assim, né, a delícia sempre vem junto com trabalho). E os netos já tem idade para aceitar o conselho e não trepar na aceroleira, até porque há tempo elegeram o caquizeiro como astronave. A vida muda, a gente muda, ou lembrando John Lennon, que disse “o sonho acabou”: Pesadelos passam, ora /tudo é bom, John / ora tudo melhora”.

LIXO de cozinha, que enterramos aqui e ali como adubo, ressurge como pés de tomate, de abóboras e melancias. As sementes se recusam a morrer. Gente se recusa a não sonhar. Eu sonhava com o dia em que a laranjeira-lima daria suas primeiras frutas. Deu. Agora é só esperar amadurecer, Deus, obrigado.

POEMINHO: Quem planta pode esperar / quem sonha pode alcançar / esperança é fruta / que se come desde já.

foto palmeira florindo 2

Foto: Dalva Vidotte Pellegrini

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