A paz da vida na gaiola

Posted on 24/11/2014

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(Foto: Marcelo Margraf/Gazeta do Povo)

Daniel Zanella

Resenha publicada na Gazeta do Povo, 17/11/2014.

A paz da vida na gaiola

Crônicas de Uma Outra Pele, de Miguel Sanches Neto, confirmam o vigor de um autor de ares ensaístas e comprometido com os livros

Sempre que se aventura na crônica para falar de bibliotecas, memórias da infância e sua inadequação diante da rapidez do mundo, Miguel Sanches Neto parece munido de um propósito maior: falar de seu amor pelos livros. E isso ele faz de um jeito bem próprio, emulando ao melhor dos ensaios de Montaigne, retrabalhando algo dos limites conceituais de Fernando Sabino e roubando um tanto do Rubem Braga interiorano. As costuras funcionam.

Seu Uma Outra Pele, lançado pela Container Edições, traz perspectivas sobre o fazer literário e estuda informalmente as relações entre leitura e educação. E se você é um leitor preocupado com a legitimidade de Neto sobre essas coisas mais complexas que envolvem as enormes distâncias entre o céu e a terra, fique tranquilo: estamos diante de um autor que até sobe no caixotinho, mas diz coisas sem maiores interesses de catequização – a literatura como salvo-conduto em um mundo veloz e furioso.

Como todo cronista que se preza, Miguel não faz concessões à própria individualidade, colocando-se numa posição secundária de observar a si sem as amarras da vergonha, como em “Minha Melhor Semana”. “Transparente demais, não sei disfarçar; quando vejo uma mulher que me chama a atenção, fico incomodado, mexo-me, foco a parte de seu corpo que mais me atrai e sofro todas as perturbações possíveis. Quando me deprimo, também é fácil descobrir. Baixo o tom de voz – eu que falo alto – e fico com a testa franzida. Sou uma pessoa que se revela – um péssimo ator, portanto.”

No quintal

A autoironia na crônica, assim como no universo dos quadrinistas, é um recurso de defesa, recorrente e válido – Miguel só pesa um tanto a mão quando deixa fluir o seu visível (e compreensível) rancor de aspectos do mundo literário e acadêmico. A formatação de uma outra personalidade interessa aos cronistas e abre campo para especulações sobre o cotidiano – aquilo que Montaigne fazia de falar de morte e culinária na mesma frase. Ao se criticar, o escritor desarma, sensibiliza o leitor pela humanização, se destitui de vaidade e promove o diálogo. Cria-se, assim, um exercício em que o leitor bisbilhota a vida do escritor-personagem para melhor entendê-lo.

“Um escritor lê alguns livros não porque aprecie o autor ou a obra em particular. E sim para aprender a escrever, para internalizar estruturas, para adquirir um conhecimento técnico sobre algum aspecto. Num período em que prevalece a ditadura do entretenimento, o autor sério não pode deixar de se apropriar de ferramentas que permitam um trânsito mais contemporâneo”, diz em “As Leituras do Escritor”.

Esta característica, da ridicularização assistida e interpretada, faz de Uma Outra Pele um importante documento de percurso, uma espiada na intimidade de um autor que não abdica de seu ideário e permanece em busca de algo intangível – essa soma de leituras e impressões que leva um escritor, sempre, a pesquisar e forçar a linguagem. [Apesar de sabermos que a literatura é um exercício contínuo de fracassos gloriosos.]

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Entre minhas esquisitices está o fato de minha biblioteca não ter janelas – há apenas uma camada de vidro no alto da parede. Trancado nesta construção, não vejo o que acontece no jardim de casa, se faz sol ou se chove. E corro para este refúgio sempre que a vida permite – nenhum lugar no mundo me atrai mais do que este reduto de individualidade. Por que uma biblioteca fechada assim? Porque preciso me desligar da vida doméstica, dos acontecimentos de meu bairro, das exigências da profissão, da solicitação dos amigos. Sou carente de solidão

Trecho da crônica “Abrindo Livros”.

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