A primeira vez de Luiz Ruffato

Posted on 20/11/2014

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Luiz Ruffato é mais um dos escritores que, reconhecidos em outros gêneros, fizeram recentemente a sua estreia na crônica. A novidade é sugerida pelo próprio título do livro, “Minha primeira vez” (Arquipélago Editorial), embora o tema desse texto em si seja a sua entrada no mundo da leitura. São as letras, aliás, que rendem boa parte das suas crônicas, ficando as restantes divididas entre as suas memórias de Cataguases e Juiz de Fora e as suas preocupações com os rumos da humanidade.

Com um texto bastante límpido, Ruffato fala sobre as agruras e prazeres da escrita, sobre a capacidade dos livros em mudar o nosso olhar do mundo (e inclusive transformar realidades), sobre a repercussão da sua Geração 90 e a possibilidade de se viver de literatura. Analisa casos singulares na literatura, como Fernando Pessoa e Clarice Lispector, e ainda conta as viagens pelo mundo afora que as letras lhe proporcionaram – algumas com impressões tão fortes que o fizeram até cogitar a existência de Deus.

Ruffato vem, na verdade, de uma terra de escritores – o que ele lamenta, pois não pode sequer se considerar o melhor escritor da sua cidade. A pequena Cataguases é a melhor cidade do Brasil, como são todas as cidades para quem lá nasceu. O cronista reconstrói a geografia artística de sua cidade e descobre que ela é mais importante do que imaginava quando morava lá. Relembra ainda singelos episódios do tempo da sua infância e dos marcos que eles representaram para o seu crescimento pessoal.

Os textos sobre Juiz de Fora são bem confessionais, mostram um jovem Ruffato trabalhando modestamente em uma oficina e recém-descobrindo que havia uma ditadura no país. Também foi lá que se formou em jornalismo e descobriu a paixão pela literatura, além de ter cultivado amizades e admirações mútuas. De lá partiu para São Paulo, onde aparece em suas crônicas com algumas histórias de bastidores do jornalismo.

Mas além de falar de livros e se lembrar do passado, Ruffato está atento ao que acontece ao redor. Percebe as crises do mundo, diagnostica a nossa incapacidade de ouvir a opinião dos outros e a nossa preocupação com o nosso próprio bem-estar, observa com curiosidade que isso só muda em circunstâncias extraordinárias como uma Copa do Mundo ou um terremoto. Anuncia ainda a sua resistência à mcdonaldização do mundo e revela a sua utopia: quer transformar São Paulo em cidade de todo mundo.

É um escritor que consegue nos convencer de que tem coisas a falar. Isso, num gênero em que se pode falar de tudo, é um grande mérito.

Henrique Fendrich

primeiravez

Minha Primeira Vez 
Luiz Ruffato
Arquipélago Editorial
192 páginas
R$ 35 

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