Fernanda Torres em sete anos de textos curtos

Posted on 03/11/2014

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A arte é um sério antídoto contra as certezas. Assim conclui Fernanda Torres, que há sete anos começou a estender a sua atividade artística para o campo das letras – e com sucesso, como comprova a ótima acolhida de “Fim” (Companhia das Letras), o seu romance de estreia. Mas os primeiros textos que escreveu pouco tinham em comum com a ficção – eram perfis, ensaios ou mesmo reportagens que escreveu para a piauí. Depois vieram convites para a Folha de São Paulo e a Veja Rio, os textos se tornaram mais rotineiros, até que um dia ela decidiu juntar os melhores em um livro – “Sete anos” (Companhia das Letras), que acaba de ser lançado.

Está lá na capa: Crônicas. Mas a absorção pelo gênero dos textos de Fernanda Torres não é tão simples assim, já que no livro estão incluídos justamente os longos textos que escreveu para a piauí, como os perfis de Bráulio Montovani e Hany Abu-Assad, o ensaio sobre o medo do ator entrar em cena ou a introdução para as correspondências de John Gielgud. O próprio texto de abertura, que rememora as filmagens de Kuarup, conta com 20 páginas. Já os textos feitos no seu tempo de colunista são chamados pela própria autora de artigos – e, de fato, na maior parte deles não se enxerga o escritor descompromissado que caça borboletas pelo cotidiano.

Na verdade, o livro de Fernanda é bastante heterogêneo e abrange gêneros diversos – inclusive a crônica. Em todos, no entanto, como destaca Antonio Prata, se sobressai a voz da autora, o que garante a sua unidade. Fernanda é inteligente e tem ótima bagagem cultural, capaz de aplicar Shakespeare com naturalidade em um texto sobre o mensalão. A política, aliás, foi o tema sobre o qual Fernanda escreveu inicialmente para a Folha. Todos os textos sobre o assunto que passaram para o livro ainda são perfeitamente compreensíveis, mas não é de se estranhar que alguns envelheçam e se tornam datados – é o mal do tema, não da autora.

Esta, está mais preocupada em compreender as mudanças em um mundo onde as artes e os valores modernos estão cada vez mais ligados à economia às massas. Sabe que não há mais certezas e que nenhuma doutrina sobreviveu às últimas intempéries, mas acha impossível para uma mãe atingir a placidez dos céticos. O estranhamento diante do outro, as barreiras que separam uma cultura da outra e os conflitos decorrentes da mudança de conceitos trazida pela tecnologia também são objetos da atenção de Fernanda – ela que acha difícil reconhecer algo humano nos games interativos que seu filho joga e se pergunta se Hamlet ainda fará sentido.

A autora interessa-se pelo entretenimento, associa a Disney à Idade Média, o UFC ao Coliseu e questiona se ainda haverá teatro na ordem econômica do terceiro milênio. Talvez até como forma de resistência é que Fernanda escreve vários textos sobre os bastidores da dramaturgia e também se mostre especialmente interessada em escrever textos de despedida para figuras importantes da área – Dercy Gonçalves, Jorge Dória, Eduardo Coutinho, João Ubaldo Ribeiro.

E o pai, naturalmente. É nos textos em que fala da morte de Fernando Torres que ela se torna mais pessoal. Com seu estilo direto e enxuto, Fernanda praticamente nos transporta para o quarto em que o pai veio a falecer, talvez no texto mais bonito do livro. Outro momento bem marcante é quando assiste ao ensaio de uma peça da mãe e descobre uma Fernanda Montenegro que ainda desconhecia. Em textos ágeis e que vão além do trivial, Fernanda Torres mostra que não é apenas mais uma celebridade a se aventurar nas letras.

Henrique Fendrich

seteanos

Fernanda Torres – Sete Anos

Companhia das Letras, 192 p., R$ 34,90

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