Há 50 anos morria o cronista Antônio Maria

Posted on 15/10/2014

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Na madrugada de 15 de outubro de 1964, às 3h15, quando se dirigia para a boate Le Rond Point, em Copacabana, onde pretendia trocar um cheque, Antônio Maria sofreu um infarto fulminante. Foi socorrido por pessoas que o viram cair, incluindo o seu amigo Nilo Raposo, delegado de polícia, que levou-o a um pronto-socorro, mas o cronista já chegou lá morto. Cardiopata desde a infância (ou cardisplicente, como ele mesmo dizia, um cardíaco displicente), Maria já tinha um histórico três infartos. Encontrava ali, aos 43 anos, o seu destino diante de uma vida em meio aos bares, mulheres e redações de jornais. Locutor esportivo, produtor de rádio, compositor de jingles, Maria também foi um dos nossos cronistas maiores. A morte precoce, no entanto, parece ter contribuído para que a sua produção no gênero não recebesse a devida atenção das gerações posteriores.

Antônio Maria nasceu em Recife aos 17.03.1921. A julgar pelas suas crônicas, teve uma infância feliz e desfrutou de bons momentos em sua terra natal. Aos 17 anos se tornou apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. Por essa época também já começava a escrever em jornais da cidade. Em 1940 foi para o Rio de Janeiro ser locutor esportivo na Rádio Ipanema. Ficou apenas 10 meses na cidade, tempo suficiente para passar fome e ser preso, até retornar ao Recife, onde se casaria em 1944 com Maria Gonçalves Ferreira.

Logo depois se mudou para Fortaleza, onde trabalhou na Rádio Clube do Ceará, e depois de um ano foi à Bahia como diretor das Emissoras Associadas. Lá fez amizade com Di Cavalcanti, Dorical Caymmi e Jorge Amado, chegando inclusive a sair candidato a vereador.

Em 1947, já com os filhos Rita e Antônio, volta ao Rio de Janeiro como diretor artístico da Rádio Tupi. Seria também o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 1951. Em meio a isso, começou a escrever crônicas diárias para “O Jornal”, no qual assinou até 1955 as colunas “A noite é grande” e “O Jornal de Antônio Maria”. No início de 1959, manteve por pouco tempo a coluna “Mesa de Pista” no jornal “O Globo”, tendo então se transferido para a “Última Hora”, onde voltou a assinar “O Jornal de Antônio Maria”, além de uma coluna com crônicas e reportagens chamada “Romance Policial de Copacabana”. Com o tempo passou a ilustrar as suas crônicas, fazendo aparecer, em um canto, a ave Ivanov e o gato Profumo.

Trabalhou ainda na rádio Mayrink Veiga e participou do programa “Preto no Branco”, de Oswaldo Sargentelli”. Assinou alguns shows na boate Casablanca ao lado de Paulo Soledade. Fez jingles comerciais em parceria com Geraldo Mendonça e o maestro Aldo Taranto,  compôs músicas gravadas por nomes como Aracy de Almeida e por Nora Ney, que fez grandes sucesso com “Menino Grande” e “Ninguém me ama”, composições anda lembradas.

Extrovertido, Maria fez muitos amigos, embora, como se reflete em suas crônicas e músicas, sempre tivesse a solidão dentro de si. Morreu sem ter publicado nenhum livro, mas foram feitas antologias póstumas que permitem conhecer a produção dele que é visto como um dos nossos cronistas maiores.  São textos confessionais, intensos, líricos, bem-humorados, ternos – escritos, sobretudo, com o coração.

Livro de Antônio Maria:

O Jornal de Antônio Maria – Editora Saga/1968 – seleção de Ivan Lessa.

Com vocês, Antônio Maria – Editora Paz e Terra/1994 – seleção de  Alexandra Bertola.

Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria – Editora  Civilização Brasileira/2002 – organização Joaquim Ferreira dos Santos.

O diário de Antônio Maria – Editora Civilização Brasileira/2002 – Joaquim Ferreira dos Santos (apresentação).

Seja feliz e faça os outros felizes: As crônicas de humor de Antônio Maria – Editora  Civilização Brasileira/2005- organização Joaquim Ferreira dos Santos.

Despedida – Antônio Maria

Permite que eu deseje, agora, tomado e vencido pelas urgências que de mim exigem, um canto de sono e preguiça onde ainda não se tenham inventado o telefone e o relógio. Deixa que eu seja pessoal em mais uma crônica para, ao medo das tarefas que se me impõem, querer, ardentemente, que não tirem do rol das pessoas úteis, que me esqueçam e que me abandonem, que me larguem, enfim, onde seja lícito viver ignorado e despercebido. Sinto-me vazio de poesia, esgotado de um resto de doçura que tanto prezava e, coagido pelos que revendem minhas idéias, dói-me o tempo e o esforço gastos, os ardis e os truques que emprego para arrumar palavras e construir frases de efeito. Lamento enganar a todas. Permite que eu deseje, agora, um silêncio que me contagie de tristeza, uma calma boa e definida para, num momento espontâneo e sossegado, escrever as grandes definições, as palavras que me envaideçam, os versos e as cantigas que me elevem, querida, à glória e à resolução do teu desmesurado amor. Através dessa janela vejo coisas que, antigamente, eram poderosas e fecundas. O céu repete o azul de tantas tardes acontecidas em maio, as últimas quaresmeiras do verão agonizam na saia do morro, os homens martelam a pedreira… e eu não sinto vontade de rir ou de chorar. Na rua, arrastando uma corrente eterna e incompreensível, passa mais um caminhão da Standard Oil… e eu não sinto nenhum vexame político, nenhuma revolta social. Por isso e pela descrença que em meu espírito se acentua, permite que eu deseje ser só — ou teu somente — num lugar do mundo onde os gritos não tenham eco, onde a inveja não ameace, onde as coisas do amor aconteçam sem testemunhas. Livrem-me da pressa, das datas, dos salários e das dívidas e a todos serei agradecido, num verso submisso. Livrem-me de mim, de uma certa insaciabilidade que apavora e de todos serei escravo numa humilde canção. Permite que eu só queira, agora, esse canto de sono e preguiça, onde não necessite dos atletas, onde o céu possa ser céu sem urubus e aviões, onde as árvores sejam desnecessárias, porque os pássaros se sintam bem em cantar e dormir em nossos ombros.

31/05/1963

(do livro “Com vocês, Antônio Maria”)

Canção de Homens e Mulheres Lamentáveis – Antônio Maria

Esta noite… esta chuva… estas reticências. Sei lá.

Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?

Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:

— Estou me sentindo assim, assim, assim…

A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.

Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.

E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: “Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country”.

Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.

Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.

Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:

— Que é que houve? O senhor está mais velho?

Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:

— O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.

Tinha pensado que, sem os óculos…

Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

(9/10/1964)

(do livro “Com vocês, Antônio Maria”)

Veja também: 

 O coração de Antônio Maria

Oficina celebra a memória de Antônio Maria 

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