O ponto forte (Raul Drewnick)

Posted on 12/10/2014

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Raul Drewnick*

Preparando o café e as torradas, Mariluce sentiu que estava faltando alguma coisa naquela manhã. Os beija-flores faziam a algazarra de sempre nas duas árvores do quintal, mas ela não estava ouvindo a voz gostosa do marido, que aos domingos, não precisando correr para o trabalho, ficava mais tempo no chuveiro e cantava as músicas que ela e ele tinham dançado nos bailes, na época do namoro.

Desligando a cafeteira, Mariluce começou a subir a escada do sobrado. Álvaro devia estar dormindo ainda e isso queria dizer o seguinte: que a teimosia dele na véspera, não querendo pôr o pulôver, tinha dado no que ela havia previsto: num resfriado. No meio da escada, ela já sabia que Álvaro podia até estar doente, mas não estava na cama: o barulho do chuveiro chegou aos seus ouvidos. Mas dessa vez não veio misturado com os versos de nenhuma canção. Álvaro estava mudo.

“Alvinho, tudo bem aí?”, ela perguntou, depois de dar três batidinhas na porta do banheiro.

“Tudo”, ele respondeu, com uma secura incomum que indicava outra situação rara: ele estava de mau humor.

Mariluce não precisava perguntar nada a ele. Sabia o que tinha acontecido. Na noite anterior, os dois tinham ido à casa dos pais dele. Mariluce detestava essas visitas. O sogro era simpático, mas a sogra era abominável. Mariluce estava casada com Álvaro fazia quatro anos e era como se ainda não tivessem saído da fase do namoro. Sempre que a bruxa via o casal, fazia questão de não esconder que não gostava de ver os dois juntos. Por ela, o filhinho querido ainda estaria embaixo de sua asa.

Na véspera, assim que haviam chegado, Mariluce foi largada na sala com o sogro, enquanto a megera levava o filho para a cozinha e começava a cochichar com ele. Quando voltaram para a sala, Álvaro olhou quase rancorosamente para Mariluce, enquanto a sogra dava mais uma de suas alfinetadas:

“Como é que você deixou o Alvinho sair sem agasalho?”

“Foi ele que não quis pôr o pulôver. Foi ou não foi, Alvinho?”

Álvaro não respondeu, e isso deixou Mariluce tão indignada que ela não falou mais com ele o resto da noite. Engoliu penosamente o nhoque do jantar e segurou-se várias vezes para não pular em cima daquela velha amaldiçoada que a olhava como se pensasse: afinal, o que foi que meu filho viu nessa aí?

Voltaram para casa sem trocar uma palavra e ela foi para a cama antes dele. Quando, quinze minutos depois, ele se deitou, Mariluce fingiu estar dormindo. Álvaro encostou a cabeça no ombro dela e, ainda sem uma palavra, reconciliaram-se com beijos e abraços. Tudo parecia normal de novo e tinha sido com essa impressão que ela havia acordado.

Mas a resposta seca de Álvaro depois das três batidinhas dela na porta do banheiro deixou em Mariluce a certeza de que o veneno da sogra ainda circulava nas veias dele. Bom, isso não era problema. Ela já sabia – porque havia acontecido antes – que Álvaro, influenciado ainda pela mãe, falaria pouco ou nada com ela. Passariam o dia assim, quase como dois estranhos. Mas, à noite, quando ela se deitasse, ele iria encostar a cabeça no ombro dela. A velha maldita podia não saber o que o filho tinha visto nela. Mas Mariluce sabia.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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