Lya Luft contra a manada

Posted on 29/09/2014

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Lya Luft é uma mulher do seu tempo e dele quer dar testemunho do jeito que pode: soltando suas fantasias ou escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza, doença e morte. Escreve para instigar e deixar inquieto o seu leitor imaginário – que ele se dê ao direito dessa transgressão que é pensar. Sobretudo, para que ele fuja do espírito de rebanho, para que deixe de correr com a manada, para que não tenha medo de ver quem ele é e descubra em si regiões nem imaginadas.

Não é esta uma tarefa fácil, pois demanda um sossego que não faz parte da nossa trepidante cultura de agitação e barulho. Gostar de sossego é uma excentricidade, de modo que vamos adiando o defrontamento com nossa alma sem máscaras. Preferimos a comodidade, ainda que com ela nos tornemos membros do que Lya chamou de “confraria da mediocridade, que cultua o mais fácil, o mais divertido, o que todo mundo pensa ou faz, e abafa qualquer inquietação”.

A cronista sabe que não há perdão nem anistia para que os que ficam de fora da ciranda, “os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço de sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência”. Esses, praticamente nem existem e, se não cuidarem, acabam em uma jaula, trancafiados como animais estranhos. É um esquizofrênico conflito a que estamos sujeitos: adequar-se a um grupo e preservar a sua própria identidade para sobreviver.

Esta é uma das mensagens mais latentes ao longo das crônicas de “Pensar é transgredir” (2004, Record). Lya Luft fala da vida, não de uma que esteja pronta e acabada, mas aquela que está em permanente reinvenção através do pensar. A vida, diz ela, não está aí para ser suportada nem vivida, mas elaborada. E ela há de rolar por cima da gente, reduzindo a poeirinha inútil quem se esquecer de às vezes parar para pensar.

Para que isso aconteça, para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, a escritora tem uma receita: é preciso ser amado, amar e amar-se, ter esperança, qualquer uma. Para ela, o amor, do jeito que pode ser, é o caminho da liberdade e da grandeza – é a nossa única possibilidade de salvação.

Ah, mas a vida também é confusão. O mesmo animal predador que mata por lucro e poder também produz arte, ama, sabe refletir, ensinar, expressar ideias incríveis, acolher o amigo, segurar a mão do amado que morre. A ambivalência, afinal, é o que nos salva da poeira da mesmice. Por isso é tão difícil estabelecer com justiça e justeza regras regais quando se trata de costumes, sentimentos, tradições, legados familiares emocionais e conceituais – mas questionar é um bom começo.

Para que não nos tornemos “os medrosos e apáticos que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação”. E saibamos que, se não podemos corrigir os males do mundo, que ao menos não colaboremos para que ele se torne mais violento, mais mesquinho e mais cruel.

Lya Luft questiona até mesmo o que não se esperaria de uma mulher (será que é tão vantagem assim não ficar “só” em casa?). Considera que as mulheres não são santas e que sabem ser chatas, implicantes, indiscretas e críticas. Observa: “Não são só as mulheres que precisam falar e ser ouvidas”. Admite que deve ter uma visão do masculino mais positiva do que boa parte das mulheres e reflete que “a mulher-vítima e a mãe-mártir inspiram culpa e aflição, e perturbam toda uma família”. São pontos de vista apresentados especialmente na corajosa “Canção dos homens”.

O livro conta ainda com textos comoventes, como o diálogo de “O menino e sua mãe”, o relato confessional de “Visitas à velha senhora” e as inocentes observações de “Dicionário para crianças”. Textos sinceros e bem escritos por uma mulher que, mesmo com a cor do seu cabelo e dos seus olhos, mesmo com seu sobrenome, mesmo com os livros que leu na infância e com o idioma que falou naquele tempo, não se considera menos nascida e vivida nessa terra de tão surpreendentes misturas que é o Brasil.

Transgridamos, pois, com ela.

Henrique Fendrich

2004 - pensar e transgredir

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