A empatia de Artur da Távola

Posted on 09/09/2014

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Não é de se estranhar que as crônicas de Artur da Távola sejam tão pouco conhecidas entre nós: seu estilo, ao contrário do que se espera para o gênero, não privilegia o trivial senão como motivação para complexas análises comportamentais. E, no entanto, que bom seria se fossem mais conhecidas! Porque o sentido maior que transborda pelas crônicas de livros como “Mevitevendo” (Nova Fronteira) é o da empatia e o da consideração pelo sentimento do outro (coisas importantes, mas que, como o escritor, andam meio fora de moda).

Grande observador, Artur da Távola escreve textos “completos”, isto é, que esmiúçam toda uma realidade para alcançar algumas verdades. Faz isso ao refletir sobre sentimentos, especialmente relacionados ao amor, mas também sobre condições como a juventude, a timidez ou a solidão. Os temas podem parecer batidos, mas é justamente pela originalidade de pensamento que Artur da Távola se destaca.

O cronista, atento às tendências (os textos são da década de 70), também aborda de maneira franca e inteligente assuntos como a posição do pai contemporâneo e as dificuldades na educação dos filhos. E não faz isso de maneira dogmática: ao contrário, expõe todas as suas dúvidas. É também pela sua sinceridade, que chega ao paroxismo em “Ato leigo de contrição”, que Artur da Távola provoca no leitor a mesma empatia em que acredita.

Este livro, ao contrário de “Alguém que já não fui” e “Cada um no meu lugar”, conta com alguns textos de reminiscências, embora o cronista deixe claro que não os escreveu com a nostalgia de quem acha melhor a vida do passado. Estão lá, como em todos os livros, os jogos de palavras que Artur da Távola faz para delas extrair significados maiores (a diferença entre “fazer anos” e “aniversariar”, “neurose” e “neorose”, “vencer” e “venser”, por exemplo).

E se destacam crônicas como a que escreveu sobre a figura do garçom, ou a que escreveu a favor dos perdedores, além de ideias como a que associa cristianismo a comunicação e a interessante defesa que faz do mito diante da ciência. Um ou outro texto não se constitui propriamente em crônica, mas pequenas notas – e nem por isso deixam de evocar a mesma vida mais equilibrada e tolerante que ainda nos parece tão difícil conseguir.

Henrique Fendrich

mevitevendo

SER TÍMIDO – ARTUR DA TÁVOLA

O que é, para você, ser tímido? Ficar num canto, medão dos outros, calado, mordido por si próprio, incapaz de gesto ou palavra? Não. Isso é ser inibido.

Ser tímido é ter o gosto da multidão e temê-la. Ser tímido é ficar com vergonha pelo outro. É  saber que pode duvidar de tudo.

Ser tímido é preferir calar sabendo o que falar. É não entrar nas disputas, cortado por elas, por dentro. É ficar mais do lado do garçom que do próprio e construir só na imaginação tudo que tem de melhor. E não se expor nunca, babau para as eficiências ou glórias.

Ser tímido é esperar que o descubram. É invejar sem inveja. É ser capaz de se emocionar com certos poucos que a sensibilidade escolhe e sabe de onde vêm, nas poucas vezes em que chegam.

E se querer primeiro e se esperar por último. É zangar com as próprias raivas e duvidar sem temor.

Ser tímido é ter um orgulho! E curtir até com soberba emoções de somenos para os outros, e ser humilde naquilo de que os demais se orgulham.

Ser tímido é manter o espanto do olhar de qualquer criança frente ao estranho. Ou abrir os braços para ele sem saber por quê. É estragar as defesas todas pelo sorriso. E temer a quem ama e detestar a quem teme.

Ser tímido é querer a gravata borboleta que nunca usará. É encontrar calor nas derrotas e temer ganhar, pelos outros. Ser tímido é sentir alegria no que não dá resultado e enfadar-se com as vitórias. É esperar algo que não se sabe, mas se aguarda com fé.

Ser tímido é trabalhar no que não dá e gastar o tempo por um critério muito pessoal e impossível de explicar às pessoas práticas.

Ser tímido é ficar sempre do lado de fora da vitrina.

É gastar pérolas ou suéteres onde não deve. É ser provisório. É poder ter brinquedos emprestados. É permanecer gostando.

Ser tímido é entender cães e crianças. Pode ser falar muito. Pode ser até brilhante. Pode ser luzir. Mas sem raiva, senão de si mesmo, por ofuscar os outros. O tímido é o rei do sentimento do outro no lugar do próprio. É um doente do melhor de si mesmo.

Ser verdadeiramente tímido é nunca saber o impreciso limite entre timidez e fraqueze. É ser tolerante com ambos. É ser duro como pedra consigo mesmo e sentir-se responsável não pelo cartão do ponto, mas pela sensibilidade dos demais.

Ser tímido é poder querer. É fazer sem que saibam, mas ter necessidade de que saibam. Ser tímido é ser temeroso da própria vaidade, é querer entrar na festa, eterno penetra da alegria alheia porque a sua é secreta.

Ser tímido é rir para, em vez de rir de. Ser tímido é procurar saber, é querer a justiça, é esperar que os outros reconheçam. É situar tudo no plano do afoito ou do afeto, mesmo quando não existem.

Ser tímido é transformar-se em flores. É manter a pão e água o que não se dobrou. O que resiste. O que não se entrega. O que é mais forte até do que o desejo de não ser tímido. É ficar de longe, intenso, mas imperceptível.

Ser tímido é emocionar-se demais e pairar olímpico. É ter recato pelo que não pode e não diz, não fala e resiste.

Ser tímido é viver convalescendo de si mesmo, ontem. Mas igual amanhã, arre! É ter perdido a visão heróica de si mesmo e sentir-se muito melhor, embora julgasse que ia ser insuportável.

Ser tímido é esperar que o sintam, sabendo-o impossível mas sabendo-se possível.

É voltar para casa numa solidão de luas e cães.

Ser tímido é manter viva a criança, rolar pelo chão com a vida que não teve,feliz porque ela se prolongou na fantasia. É levar a vida que teve dentro da pasta, disponível.

Ser tímido é saber mais do que faz. É ficar feliz quando pontas do que é e sente são percebidas de graça. Num ato, gesto, olhar ou bofetada.

Ser tímido é gostar de chuva. E rezar. É ter saudade do pai.

Ser tímido é ser rei, na madrugada de seu reinado escondido e deslumbrante.

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