A Manaus de Fernando Sabino

Posted on 02/09/2014

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Fernando Sabino foi um dos poucos escritores que se dispôs a conhecer a Amazônia e escrever sobre as suas impressões. Em 1976, ele chegou em Manaus sem saber o que esperar. Carregava consigo opiniões ainda bastante imprecisas sobre a região (a confusão, reconhecia, começava pela própria dificuldade em separar Amazônia e Amazonas). Em pouco tempo, descobriu o que o fuso da cidade em relação ao resto do Brasil era de uma hora, e não de 100 anos, como chegou a imaginar.

Lá mesmo, começou a ler livros com informações históricas e estatísticas sobre a cidade. Eles forneceram muitos dados que seriam usados pelo cronista nas crônicas que fez sobre a viagem, reunidas mais tarde na coletânea “O Encontro das Águas” (Ed. Record). São textos escritos no tom bem humorado que lhe é peculiar, mas também pontuados por comentários analíticos ou mesmo críticos.

Sabino descobriu o problema das cheias em Manaus e a realidade dos moradores que se recusam a sair das palafitas. Soube de pescadores fatalistas, gente que vivia subalimentada, doente, em cabanas suspensas, acreditando que tudo era imposição do destino e não buscando outro conforto que não o espiritual. Reconheceu a aceitação desencantada do caboclo amazonense diante da miséria ou da prosperidade.

Àquela altura, após o ciclo da borracha, o que mais se discutia era a integração da Amazônia ao resto do Brasil. O cronista viu no encontro das águas em Manaus um sentido simbólico para esta integração, que não deveria ser feita apenas pelos produtos industriais e bens de consumo que ela poderia oferecer, mas também por valores como a beleza natural da região: “A integração da Amazônia tem de significar uma harmonia de valores distintos, uma relação de coexistência sem predomínios, que não afete a integridade de sua natureza e suas tradições”.

Sobre a Zona Franca, o cronista entendia que o futuro diria se era um surto esporádico sem continuidade ou a própria redenção da Amazônia. Ele discute ainda a arquitetura e o desenvolvimento urbano da cidade, a imponência do Teatro Amazonas, os restaurantes e a culinária, as notícias singulares que lia nos jornais locais. Também dialoga as suas impressões com a de outros escritores que passaram por lá, como Mário de Andrade (que não gostou da cidade) e Euclides da Cunha (que achava que o homem invadiu Manaus antes da cidade estar pronta para recebê-lo).

O tom mais crítico do cronista se refere às missões salesianas dedicadas à causa do índio local. Ele se pergunta se, ao invés de ensiná-los, não seria o caso de “nós” aprendermos com os índios os princípios de uma vida mais sadia e de maior harmonia na convivência. E sugere: “O melhor seria deixar o índio em paz enquanto for possível, adiando um pouco a desgraça de sua extinção, com o avanço da civilização Amazônia adentro”.

É contra também a catequese pura e simples, considerando que o ideal é um estágio em que o índio esteja a ponto de discernir para optar pela religião que quiser, e se quiser. Constatou ainda o aproveitamento de índios jovens ou seus descendentes como empregados domésticos.

Parecia-lhe ainda que, em breve, as festas tradicionais da região seriam afetadas pela influência da televisão ou de outros produtos trazidos pela Zona Franca. As próprias lendas e crendices, segundo ele, tenderiam a perder o seu lugar na alma do povo e desaparecer.

Tudo isso Sabino ia refletindo enquanto conhecia Manaus, “cidade meio esquisita, difícil de entender”, “isolada como uma clareira no meio da selva”, e que lhe fazia sentir como se estivesse dentro d´’agua. Manaus desnorteou-o com suas contradições, entusiasmou-o com sua grandeza, deprimiu-o com seus problemas e seduziu-o com seus encantos.

Quase 40 anos depois, a problemática da Amazônia continua atual – e Manaus continua desconhecida da maior parte dos brasileiros.

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