Pessoal e transferível (Madô Martins)

Posted on 01/08/2014

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Madô Martins*

Minha tia era casada com um homem que lhe comprava vestidos, caixas de bombom, sapatos. Tinha gosto tão apurado quanto o dela, mulher alta, magra, naturalmente elegante. Mas ela, em geral, não gostava dos presentes que eu, pequena demais para entender as sutilezas do amor, admirava. Talvez a tia considerasse aqueles arroubos uma invasão ao seu universo feminino, como saber se o casal hoje não passa de mais uma foto no álbum dos parentes falecidos?

Adélia Prado, ao contrário, revela todo carinho ao escrever sobre seu homem. O poema “Pescaria” é prova cabal disso, com versos que eu gostaria de ter criado, se tivesse a sua história e o seu sentir.

Amor é mesmo muito pessoal. Também trago na bagagem momentos em que o amado e eu “somos noivo e noiva”, como na obra de Adélia. Algo próximo do divino, tal qual a noite em que, após o jantar trivial, ele me leu poesia, os pratos vazios ainda sobre a mesa e a voz embargada pela emoção das palavras. Foi quando a alma se alimentou na cozinha parecida com a da poeta mineira, mesmo que não houvesse um único peixe, onde se intercalavam o silêncio, o som do relógio de parede e versos lidos com olhos marejados. Sobre a toalha, livros que amamos ao mesmo tempo e em separado, já que ainda não formávamos um par, copos com o que restou do vinho preferido, nossas mãos entrelaçadas. E o tempo se fazendo eterno, para que o milagre daquele instante não tivesse fim.

O destino nos dá presentes assim a toda hora e brinca de pêndulo, ora nos convidando a viver o agora ora nos permitindo resgatar lembranças de ontem ou projetando nossos sonhos no amanhã. Igual à tia, recentemente ganhei dele algo de vestir, de forma inesperada, sem mais por quê. “Quero te fazer feliz”, me disse. “E sou”, respondi, direto do coração. Para esse homem, canto, conto histórias, mostro textos inéditos, faço confidências. Com esse homem, exerço e aperfeiçoo o amar, privilégio individual e transferível.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 600 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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