Chorando com Carpinejar

Posted on 21/07/2014

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Me ajude a chorar, pede Fabrício Carpinejar. E elenca 47 crônicas que, a princípio, privilegiam temas relacionados ao sofrimento. Mas, como a própria orelha do livro demonstra, não se trata de simplesmente chorar as suas pitangas, mas mostrar ao leitor que ele não está sozinho e que, a partir da nossa dor, é possível sobreviver, regenerar, despertar das ruínas (a orelha sugere até mesmo que o livro possa dar sentido a tudo o que uma pessoa sofreu).

É justamente com uma abordagem positiva, ou, ao menos, motivadora, que Carpinejar trata do sofrimento. A princípio o seu próprio, destacado logo na contracapa: sobreviveu ao bullying, às drogas, ao cigarro, a uma tentativa de suicídio, a acidentes de carros, assaltos, demissões, etc. E sobreviveu, diz ele, ainda que não acreditasse na hora. É, portanto, um testemunho que o cronista quer usar de incentivo e auxílio para pessoas na mesma situação.

A maioria dos temas escolhidos, no entanto, versa sobre o sofrimento em meio aos relacionamentos amorosos. De fato, Carpinejar posiciona-se como um conselheiro sentimental e, a partir de um simples mote, é capaz de suscitar dezenas de sentenças com potencial para ganhar as redes sociais.

Assim é que escolhe assuntos que, de maneira geral, funcionam para estimular o leitor a trabalhar a sua relação e os seus sentimentos. Com este objetivo, o cronista passa pelas muitas variáveis possíveis, como a disposição para amar, amar sem ser amado, as separações, a saudade, as mentirinhas, e até temas mais espinhosos, como a vingança e, especialmente, a mulher que apanha do marido e continua morando com ele.

Para conseguir o seu objetivo, Carpinejar se faz valer, além das frases enfáticas, de algumas metáforas e associações poéticas que, se não primam pela novidade, pelo menos parecem ser compreendidas. Muitos conselhos sobre a vida em geral poderiam ser os de um best-seller de auto-ajuda, embora se destaque o texto em que procura desmentir a história de que “casais inteligentes enriquecem juntos”.

Vez ou outra, o cronista remonta a episódios da sua infância, ainda que às vezes seja apenas para servir de metáfora aos relacionamentos amoroso – o melhor exemplo disso é a interessante história da tempestade de granizo que assistia ao lado do pai: no meio da crônica, Carpinejar anuncia “no amor, é igual” e o texto ganha outro significado.

O livro parece ganhar em dramaticidade nas crônicas finais, quando o escritor fala (em tom indignado) sobre o atropelamento de cachorros abandonados na BR 116, sobre a luta contra o câncer da escritora e jornalista Cíntia Moscovich, sobre o acidente do vôo 1965 (na verdade, um conto) e, por fim, a tragédia na Boate Kiss em Santa Maria.

Em suma, o texto de Carpinejar não é descompromissado: desde o começo, o cronista deseja partilhar experiências com o leitor na expectativa de que este tome um novo posicionamento diante de dores que são mais ou menos comuns a todos. A sua motivação não é meramente literária: Carpinejar deseja se fazer presente na vida de quem lê.

Não será em todo mundo que o cronista encontrará permissão para tal – há muita gente com outras motivações na literatura em geral e na crônica em particular. Mas não é de admirar que Carpinejar encontre um público a quem realmente ajude.

Henrique Fendrich

meajudeachorar

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