Novos cronistas refletem sobre cenário na imprensa

Posted on 18/07/2014

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(Imagem: Tati Bernardi/Divulgação) 

Alana Rodrigues*

Do Portal Imprensa 

Certa vez Rubem Braga (1913-1990) respondeu a um jornalista que lhe questionou o que seria a crônica – “Se não é aguda, é crônica”. A frase, em tom irônico, já indica alguns dos ingredientes indispensáveis para um bom texto do gênero: o humor e a surpresa.

A crônica é sempre lembrada pelas palavras de Braga, Luis Fernando Verissimo, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Carlos Heitor Cony, Martha Medeiros e entre tantos outros nomes que imprimiram nos jornais sua marca. O gênero também ganhou novos adeptos, mas e o espaço nos jornais impressos? O que um cronista precisa ter? Há um futuro promissor? Para responder essas e outras questões, IMPRENSA conversou com alguns cronistas, que falaram sobre suas experiências e revelaram como lidam com os desafios.

A jornalista, tradutora e escritora Vanessa Barbara, que atualmente publica seus textos na revista sãopaulo, da Folha, conta que sempre gostou de ler crônicas. A primeira leitura veio com Verissimo e dos volumes do “Para gostar de ler”. Na faculdade, ela decidiu explorar melhor o gênero e seu TCC, posteriormente publicado na obra “O Livro Amarelo do Terminal”, da Cosac Naify, resultou de um trabalho de crônica e reportagem e lhe rendeu o o Prêmio Jabuti.

Seu primeiro romance, “O Verão do Chibo”, foi escrito em parceria com Emilio Fraia. Além dele, escreveu “Endrigo, O Escavador de Umbigos”, “A máquina de Goldberg” e “Noites de alface”.Também colaborou com a revista Piauí, o jornal O Estado de S. Paulo e para o International New York Times.

A cronista avalia que o atual cenário do mercado de trabalho para cronistas é “tenebroso”, principalmente na mídia impressa. “Me parece que os jornais estão cortando custos inclusive na área de reportagem, então não sobra muita coisa para os cronistas, sobretudo aqueles de origem mais jornalística ou literária. Há algum espaço para cronistas-celebridade ou profissionais de outras áreas que tentam se arriscar na crônica, o que não seria um problema em si – caso houvesse espaço para os demais”, explica.

Vanessa pondera que uma alternativa pode ser os sites ou jornais online. Para ela, o principal desafio para quem quer se dedicar ao gênero é conseguir se manter somente com o que produz, tendo de recorrer a outras áreas. “Viver de escrever crônica é algo bastante difícil para quem realmente se dedica ao gênero”, completa.

O jornalista Ricardo Chapola, repórter de “Política” do Estadão, relata que desde o colegial praticava a leitura e escrita da crônica. Quando entrou para a faculdade, criou blogs pessoais e envolvido num debate sobre jornais, conseguiu um espaço num Diário de Araras (SP), sua cidade natal. Em 2010, entrou como estagiário no Estadão e mescla a cobertura política com suas crônicas.

Chapola, que também contribui para o site CineZen Cultural, tem como inspiração os textos de Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Xico Sá, Fernando Sabino e, de modo especial, Antonio Prata e seu pai, Mario Prata. “Quem me projetou para o ramo foi o Antonio. Gosto muito da maneira como ele escreve”, completa.

O repórter avalia que, apesar da queda da mídia impressa em meio à guinada dos meios digitais, não diminui a atuação dos cronistas. “Os blogs abriram um caminho novo e abriu espaço para todos. Acredito que é um caminho promissor e os jornais têm de filtrar e selecionar as pessoas capacitadas para isso”, explica.

Para a publicitária, roteirista e escritora, Tati Barnardi, que atualmente colabora para a Folha de S.Paulo, a crônica é “o romance do ansioso”. “Adoraria ler romances e escrever romances, mas estou numa fase que só consigo me realizar lendo e escrevendo crônicas. Pode parecer que dessa forma desmereço o formato, mas na verdade é um elogio. A crônica é uma paixão avassaladora, um tiro que precisa ser certeiro, explica.

Tati, que já foi colunista da TPM, VIP, Viagem & Turismo e Revista Alfa, acredita que o surgimento da internet abriu um espaço muito grande para o gênero. “Não consigo pensar numa profissão melhor”, diz.

Autora dos livros “A mulher que não prestava”, “Tô com vontade de alguma coisa que eu não sei o que é”, “Click Aqui”, “A menina da árvore” e “A menina que pensava demais”, ela se inspira nos textos de Antônio Prata e David Sedaris.

A escritora pondera que seu maior desafio para produzir uma crônica é tentar falar em primeira pessoa sem arrumar briga para ela mesma e tratar dos amigos sem expô-los muito.

Segundo Tati, a melhor maneira para conseguir se dar bem na área é ler e escrever o tempo todo. “Não entendo quem quer ter essa profissão e não tem pelo menos duzentas tentativas razoáveis pra mostrar”, ressalta.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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