Promessas (Elyandria Silva)

Posted on 17/07/2014

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Elyandria Silva*

 A beleza existe e é perfeita em sua forma. Uma das belezas que admiro são os cabelos brancos. Eles torneiam os contornos da personalidade, trazendo uma perfeita incoloridade para os que têm coragem de assumi-los. Prefiro e admiro os puros e brancos, sem a falsidade ideológica de tinturas que propagam anos comprados em gôndolas de supermercados ou farmácias. Também uso as tinturas da vida eterna, mas não queria, não. A coragem tem cor e, se um dia ela me possuir de forma permanente, assumo todos os meus cabelos brancos. Ainda são precoces, pois nasceram faz pouco tempo. Por hora ela me visita quando a chamo, a tal coragem. E numa sinfonia que pode beirar a perfeição, andam juntas beleza e coragem. Um dia, inesperadamente, uma vai trair a outra. É um paradoxo proposital e irreversível da vida. A beleza não tem escolha, terá que ir embora arrastada pela crueldade do tempo. Talvez seja por pensar assim que visito cabeças brancas na busca de respostas.

Procurava um lugar para estacionar. O dia cheirava a sol fresco. E o cheiro bom me impregnou. Avisto de longe o que me chama a atenção. Um casal de velhinhos que caminhava em direção à calçada no trote da paciência. Ela, uma velhinha de bengala com cabelos brancos. Com tanta prata brilhando na cabeça, a blusa rosa passava despercebida. Ele segurava um espeto de madeira que tinha uma sacola acoplada. A juventude nos liberta de todos os males do mundo, mas é muito auto-irônico considerar a certeza de que a velhice é uma visitante improvável. Buzinas, freadas, disputa de vagas e o lugar ideal surge no lado esquerdo da rua. Tinha uma festa e aquela fatia da rua era um formigueiro de gente feliz que cheirava a churrasco com orgulho. Na subida da ladeira passei por eles. Era domingo, porque é nos domingos que acontecem as melhores festas de igreja. No espeto estava o churrasco: encontraram um conhecido e pararam para conversar. Nos dias dessas festas parece que a vida se adoça mais. Os bolos enfeitados reforçam esta tese. “Querem que eu leve vocês?” “Imagina! Bem capaz…” Dentes tão brancos naquela idade surpreendem mais que os cabelos.

Lá dentro grande amontoação. Vi quando um carro deu a ré e bateu em outro, que estava parado. Alguém além de mim deve ter visto. O motorista não viu que eu vi, mas saiu com jeito de quem esqueceria a culpa na próxima esquina. Enquanto a fumaça dos fantásticos assados preenchia os espaços vazios ao meu redor, pude analisar toda a beleza, mesmo fantasiada, daquelas pessoas que disputavam maioneses e carnes em grandes filas. Sim, a beleza está nos olhos de quem a vê.

Um dia, lá no passado, a beleza fez parte da vida daquele casal domingueiro que descia a ladeira com o churrasco. Nascemos com ela e, aos poucos, seremos abandonados em alguma curva. É quando a velhice aguarda confiante para nos encontrar. A melhor idade também é linda, mas não deve ser fácil assistir a própria pele enrugar e o corpo sucumbir à visita do tempo. Stendhal define a beleza como “Uma promessa de felicidade”. Sabemos que promessas nem sempre são cumpridas, o importante é que elas existem. Mais importante ainda é acreditar que elas podem acontecer. Essa é a beleza, essa é a felicidade, mesmo que passageira.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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