Anne Frank (Cyro de Mattos)

Posted on 15/07/2014

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Cyro de Mattos*

Um dos livros que mais me causou profunda tristeza foi O diário de Anne Frank. Antes de ler esse livro, já sabia que a jovem Anne, seus pais, a irmã e os outros quatro clandestinos que viviam no Anexo do escritório iriam ser descobertos a qualquer dia e seriam enviados pelos alemães para o campo de concentração. Como não queria que isso acontecesse, era impotente para impedi-lo, a tristeza foi se alojando dentro de mim na medida em que ia lendo os relatos e conhecendo o círculo negro que se fechava em torno de oito criaturas vivendo como ratos. O que o poeta Cassiano Ricardo disse certa vez, a mais difícil prova é a da inocência, deixava de ser metáfora dolorosa para ser verdade cruel diante de meus olhos, vinda da leitura que eu fazia de O diário de Anne Frank.

A destruição da inocência mostrava-se diante de mim com a força de relatos que descreviam atrocidades e horrores cometidos contra os judeus. A pungente narrativa da jovem Anne Frank conta isso no período compreendido entre 12 de junho de 1942 a 1* de agosto de 1944 quando viveu escondida no Anexo do sótão do escritório de Otto Frank, durante a Segunda Guerra Mundial. Aflições de uma menina que se faz mulher, a revelação do amor em seu primeiro despertar, pequenas alegrias de um espírito jovem que sonha em ser jornalista e escritora, para que não se tornasse uma pessoa comum, mas útil mesmo depois de morta, tudo isso na adversidade aterradora dos momentos revela uma alma ingênua, que cresceu e amadureceu durante o sofrimento.

Filha de um banqueiro e de uma dona de casa, aos quatro anos de idade Anne foi obrigada a sair da Alemanha com a família, pouco depois da chegada de Adolfo Hitler ao poder. Com a perseguição aos judeus deflagrada também na Holanda, Otto Frank, a senhora Frank, a adolescente Anne Frank e a irmã Margot unem-se ao senhor van Daar, senhora Daar, o filho Peter e o cidadão Dussel e decidem se esconderem dos invasores alemães.

Anne Frank chamou seu diário Querida Kitty, durante o período de angústia e medo, alimentação com legumes podres e mau cheiro de objetos no Anexo. O diário foi para sua alma angustiada o único instrumento que encontrou para liberar os pensamentos e sentimentos. Ela passou a registrar com realismo do que vivia a tensão e as transformações dos confinados, constantemente se chocando uns com os outros. A atmosfera desesperadora, a conversa em sussurros, os momentos em que nem podiam se mexer, a fome terrível, os juízos vindos da crença em Deus, a distração que consistia em ouvir rádio com as notícias da guerra e a leitura de alguns livros, muitos dias de silêncio entram no conteúdo do diário numa época em que os ideais são estilhaçados e ressoam como caos, sofrimento e morte. E essa era a época em que a humanidade vivia no século que celebrava os tempos modernos, marcados pela chegada da aviação, cinema e psicanálise.

Pessoas pobres e desamparadas eram retiradas de suas casas. Mulheres chegavam das compras e descobriam que as casas foram lacradas e as famílias desapareceram. Crianças voltavam das escolas e não encontravam mais os pais. Milhares de judeus sob o ritmo implacável de um programa com incrível capacidade de persistência eram eliminados pelos alemães. Selecionavam homens, mulheres e crianças. Separavam os pais dos filhos, as mulheres dos maridos. Não poupavam os velhos e os doentes. Formava-se o grupo dos condenados à morte, o dos trabalhadores forçados, ao mesmo tempo em que todos eram despojados de sua identidade cultural, a qual era substituída pelo número de série tatuado no pulso. Tinham as cabeças raspadas.

A talentosa escritora adolescente indaga a certa altura de seu diário que sentido tem a guerra. Por que as pessoas não podem viver juntas em paz? Por que toda aquela destruição? Como gado doente e sujo, que vai para o matadouro, criaturas indefesas apertadas nos vagões. Uma nação moderna, com a sua cultura requintada, que dera ao mundo homens como Bach, Mozart, Beethoven, Haendel, Goethe, Hesse, Thomas Mann, Rilke, Kant, Hegel, agora bloqueava um povo, recuando-o para os subterrâneos mais indignos.

Frágil e indefesa, tanto quanto milhares, Anne Frank morreu de tifo, no campo de concentração Bergen-Belsen, aos 15 anos de idade. Sua vida contradizia uma condenação sem sentido no diário que deixou como um memorial precioso para a humanidade. Destacam-se nesse livro sentimentos e pensamentos inquestionáveis, como o de que sem liberdade o ser humano não respira, caminha numa viagem dolorosa por um buraco negro feito de irracionalidades.

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*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil . Na RUBEM, Cyro de Mattos escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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