Werneck e a crônica à moda clássica

Posted on 03/06/2014

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Nesses tempos em que a crônica de jornal tem perdido espaço para o colunismo sem pretensões literárias, é digno de nota que um escritor do talento de Humberto Werneck esteja fazendo o gênero à moda clássica. “Sonhos rebobinados” (Arquipélago Editorial), sua mais recente coletânea, reúne textos com a mesma verve que consagrou nomes como Rubem Braga, Fernando Sabino ou Paulo Mendes Campos: textos ágeis e leves, em tom bem humorado, com episódios cotidianos e histórias do passado. Para Werneck, o cronista não é alguém que sobe em cima de um caixote para fazer um discurso, mas o que senta para conversar com o leitor no meio-fio.

E que bom é conversar com Humberto Werneck! Suas histórias são bem construídas, seu vocabulário é bem trabalhado (para ele, a escrita automática é a maior inimiga do escritor), e a gente ainda se diverte e aprende. Mesmo reconhecendo certa preferência por histórias antigas, Werneck não apenas evita a nostalgia como também deixa o passado atraente aos leitores de hoje. Às vezes consegue isso por envolver personagens famosos, como Sartre ou Fidel, mas na maior parte dos casos é a pura habilidade de linguagem somada à uma boa história.

Nem por isso o cronista deixa de estar atento às tendências da sociedade. É singular a existência de algumas crônicas nascidas a partir de outras, publicadas e repercutidas no Facebook. Não é mais uma carta enviada à redação que tem o poder de interferir na escolha temática do cronista, mas um conjunto de respostas coletivas que, pela própria heterogeneidade dos participantes, amplia os significados e leva o cronista a escrever um novo texto com ideias que lhe ocorreram durante esses comentários.

Isso acontece nos textos em que Werneck mostra o seu gosto pelas palavras e discute o nome das coisas ou os seus significados. O cronista também não teme os trocadilhos, em geral inteligentes e apropriados ao contexto da crônica. Eventualmente se ocupa do noticiário, mas apenas como mote para as reflexões ao rés-do-chão típicas de um cronista. Werneck está próximo ao leitor, que sente a sua sinceridade e, de certa forma, pode até se considerar parte do seu capital afetivo.

Destaca-se ainda a boa organização na ordem das crônicas, com textos de temáticas semelhantes dispostos em sequência e conduzindo naturalmente às temáticas que virão.

Bom ver em Werneck o vigor da crônica.

Henrique Fendrich

sonhos

SONHOS REBOBINADOS
Humberto Werneck
232 páginas | 

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