O estilo na crônica

Posted on 02/06/2014

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Alvaro Costa e Silva* 

Publicado originalmente no Jornal da Poesia.

Já virou tradição sair por aí dizendo que brasileiro é bom de crônica. Entre as tantas explicações para nosso talento em relatar, em prosa digestiva, os tempos e as modas, tem aquela de Ivan Lessa (que é, acima de tudo, um cronista de humor): é porque trabalhamos bem com poucas armas, temos fôlego literário curto. E não há demérito nisso: basta citar os craques na arte de ser pessoal e charmoso: Rubem Braga (sempre posto em primeiro lugar), Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Antonio Maria, Sérgio Porto, Carlinhos Oliveira, passando pelos poetas Drummond, Bandeira e Vinicius, até chegarmos aos que mantém a chama acesa, Verissimo, João Ubaldo e Cony. E as mulheres, como ficam?

Muito bem na parada. Formam um time de elite, cuja linha de ataque é Cecília Meireles, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Há as injustamente esquecidas Eneida, Elsie Lessa e Maluh de Ouro Preto. Nos anos 30, um nome como Madame Chrysanthème (influência do romance homônimo do escritor francês Pierre Loti) escondia a escritora Cecília Bandeira de Melo Rebelo. Hoje, Heloisa Seixas assina os Contos mínimos da última página da revista Domingo.

O curioso é que, se os homens, quase sem exceção, começaram imitando Rubem Braga, a relação das mulheres com o Sabiá da Crônica era outra: às vezes ele atuava como conselheiro, dando dicas da própria atividade de cronista; outras, mais freqüentes, como personagem. Este é o caso da crônica saborosa de Raquel de Queiroz, “Rubem Braga explicava Portugal…”, reunida na coletânea Falso mar, falso mundo (ARX), em que ele, a sua maneira casmurra, justificava o título e ainda ensinava à linda rapariga que não lhe dava bola, que é impossível recitar Os lusíadas ao ritmo do atual falar português, pois Camões metrificou o poema ao ritmo do falar de então, que veio a ser o nosso, brasileiro e, sobretudo, carioca.

Raquel de Queiroz é a mais longeva das cronistas – ao todo, foram 77 anos de janela em inúmeros periódicos (O Ceará, Última Hora, O Estado de S. Paulo, O Cruzeiro). As crônicas da romancista de O quinze, vistas em conjunto, denunciam um espaço experimental: são perfis de tipos regionais e mesmo contos de estrutura perfeita, além de diálogos abertos com o leitor. “Em todas, a romancista e a cronista, a escritora e a jornalista, se dão as mãos de forma surpreendentemente harmoniosa”, escreve Heloisa Buarque de Hollanda no prefácio das Crônicas Reunidas (Global).

Moça da alta sociedade, colecionadora de arte, Maria Luísa (Maluh) de Ouro Preto nasceu no Rio em 1922 e deixou apenas dois livros, Crônicas de Paris e Siri na noite sem lua. Neste, está a “História triste de um cachorro”, em que Rubem Braga, outra vez, aparece como personagem: “Que soubéssemos, o cachorro não tinha nome, e aparentemente não tinha dono, pois uma manhã cedinho, encontrando Rubem Braga na Praia dos Ossos, acompanhou-o até minha casa na Praia do Canto. (…) Evidentemente era um cachorrinho que gostava de cronistas, pois além de ter seguido Rubem Braga até minha casa, quando apareci para o café da manhã ele se levantou e, encostando a cara no vidro da janela, começou a ganir insistentemente, com o jeito mais implorativo desse mundo”.

Ao iniciar em 1967 sua colaboração de todos os sábados no Jornal do Brasil, a qual se estenderia por sete anos e que está reunida nos livros A descoberta do mundo e Aprendendo a viver, ambos da Rocco, Clarice Lispector – que, como a maioria de seus pares, aceitou a tarefa porque precisava de dinheiro – conversou com Rubem Braga, pois temia ser muito pessoal nos textos. Ouviu dele que, em crônica, não havia como evitar isso. Ela, sabiamente, aproveitou o espaço para fazer quase um diário íntimo, falando dos filhos, da casa, das empregadas, do Rio, do seu passado, dos lugares por onde andou e andava, dos amigos, dos bichos, de arte em geral, respondendo (às vezes de forma desaforada) aos leitores que lhe mandavam cartas. Na busca eterna para arrumar assunto, resolveu inserir trechos do romance que produzia na época, Água viva, agradando em cheio. E, numa atitude bem Clarice, cunhou uma frase maravilhosa que punha em dúvida tudo o que estava fazendo: “Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas”.

Elsie Lessa até citou Rubem Braga em crônica, mas o encontro dos dois é mais insólito. Em 1932, encantado com a beleza da moça com quem cruzara no Viaduto do Chá, em São Paulo (“olhos quase verdes, vestido claro e andar elástico”), Rubem, também jovem à época, resolveu segui-la. Mas a perdeu de vista, e só voltaram a se encontrar anos depois, no Rio, ambos já cronistas que liam um ao outro com prazer. Elsie escreveu no Globo (no início todo dia, depois semanal e quizenalmente) de 1952 até sua morte em 2000. Ela é grande e precisa ser com urgência redescoberta, até porque só uma parte mínima de sua obra saiu em livros (A dama da noite, Ponte Rio-Londres, Crônicas de amor e desamor, todos esgotados). Ah, Elsie era mãe de Ivan Lessa e alimentou toda a vida o sonho de ser uma pastora de Ataulfo Alves.

Autora da História do carnaval carioca, livro de 1958 que ganhou uma versão atualizada por Haroldo Costa, a paraense Eneida Costa de Moraes era uma boêmia de estirpe e deixou diversos livros que infelizmente estão fora de catálogo (Terra verde, Cão da madrugada, Aruanda, Banho de cheiro), fruto de sua intensa atuação na imprensa. Sua crônica tinha uma característica: o estilo epistolar. Eneida teve uma face de militante política da qual pouco se fala: filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro em 1932 e esteve presa durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, sendo citada nas Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos.

A poeta Cecília Meirelles também nos legou uma ampla obra em prosa, da qual a editora Nova Fronteira preparou seis volumes. Três deles são dedicados às Crônicas de viagem, um ponto alto pelo que apresentam de sensibilidade e inteligência, ao percorrer países tão díspares como Portugal, Estados Unidos, Itália, França, Bélgica, Holanda, Israel, Grécia. Com a palavra o crítico José Lino Grünewald: “A leitura desta prosa, muitas vezes aparentemente despretensiosa, representa alentos para o espírito, uma acréscimo de vivência aberta ou sutilmente transmitidas e onde navega o leitor à vontade no que há de escorreito e espontâneo num estilo. O estilo e a mulher. É Cecília”.

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