Rubem Alves no caixotezinho

Posted on 28/05/2014

2



Embora pratique o mesmo gênero consagrado pelo seu xará capixaba, certamente é Alves o Rubem com maior sucesso de vendas na crônica. “O Retorno e Terno” é uma dessas coletâneas de sucesso do escritor e que já está perto de alcançar a trigésima edição. Em termos de estilo, há diferenças significativas entre as crônicas de Rubem Braga e Rubem Alves. No primeiro não há uma visão professoral da realidade (ou, para usar uma imagem recente de Humberto Werneck: no primeiro sente-se que ele está sentado com o leitor no meio-fio, e não em cima de um caixotezinho). Rubem Alves, também filósofo, é menos descompromissado e, ao longo de seus textos, tenta conceituar grandes temas como o amor, a sabedoria, o riso e a alegria, a morte e os golpes da vida.

As suas crônicas são impregnadas de uma filosofia até certo ponto compatível com a de Braga – há uma visão poética do mundo, uma observação das lições que os animais e os objetos são capazes de transmitir, além do grande benefício de ficar à toa sem fazer nada. Mas elas são antes uma defesa do ponto de vista do cronista. É também com objetivos filosóficos que Alves às vezes faz algumas tentativas de ficção (suas conversas com o diabo em nada lembram as de Braga com Bebu na hora neutra da madrugada). É verdade que da leitura podem nascer imagens muito bonitas, boas reflexões e  ensinamentos, mas sem dúvida não é um cronista com quem iremos nos sentar no meio-fio.

Também chama a atenção a obsessão de Alves pela citação de alguns personagens, provavelmente aqueles que são reveladores do seu modo de enxergar a vida. Assim é que as suas crônicas são recheadas de versos de Fernando Pessoa (todos os heterônimos), de Cecília Meireles, frases de Nietzsche, Santo Agostinho, Angelus Silesius, Guimarães Rosa, ou ainda passagens de Kundera e das “Mil e Uma Noites”.

Essa estilo de crônica que tem como objetivo extrair algum tipo de ensinamento costuma fazer muito sucesso entre o público e geralmente rende frases compartilhadas nas redes sociais. Não há demérito nesse tipo de abordagem do gênero, mas certamente não é a mais agradável para aqueles com interesses literários.

Henrique Fendrich

retorno

Anúncios
Marcado:
Posted in: Uncategorized