Primeiro dente (Domingos Pellegrini)

Posted on 26/05/2014

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Domingos Pellegrini*

Agora chamam de “janelinha” o buraco deixado pelo dente que cai, e há algumas semanas Caetano mostrou orgulhoso seu primeiro dente bambo. Agora já tem duas janelas e um terceiro está bambeando, como a vida passa! Então lhe contei minha história do dente e da pedra.

Meu primeiro dente bambeou, meu pai falou que eu fosse forçando para a frente e para trás, para ir bambeando cada vez mais, até o dente sair na minha mão.

Mas que! Eu forçava adiante, atrasante, e o dente bambeava sim, mas não saía!

Então um menino vizinho, mais novo que eu, apareceu com seu primeiro dente na palma da mão. Ele era alguns meses mais novo, por isso eu me julgava já gente-grande diante dele, e eis que aquele dente me diminuía, eu continuava um dente-de-leite enquanto ele já tinha o dente-de-sempre apontando na gengiva.

Tentei puxar meu dente, mas deu uma dorzinha. Eu lia muitos gibis, onde os sobrinhos do Pato Donald sempre inventavam jeito de resolver problemas. Ora, o que eu precisava era dar um jeito de arrancar sem dor nem dó aquele dente, logo e urgentemente!

Fucei na máquina de costura da mãe, achei uma linha grossa. Botei banquinho diante do espelho da pia e consegui laçar o dente. Amarrei bem.
Um bloco de quartzo esbranquiçado, forrado de feltro embaixo, servia como segurador de porta, e achei que era o que eu precisava: branco, combinava com o dente.

Amarrei a outra ponta da linha naquela pedra branca, botei cadeira na janela, trepei, com a pedra nas mãos, e me debrucei. Respirei fundo, fechei os olhos, abrindo a boca, e joguei a pedra.

A janela era baixa, a pedra chegou ao chão antes de esticar a linha para arrancar o dente.

Mas um herói não desiste diante da primeira dificuldade. Pulei a janela, catei a pedra e fui para a pensão tocada pela mãe, do outro lado da rua. Nossa casa era nos fundos da barbearia do pai, diante da pensão, então passei pela barbearia escondendo a pedra por baixo da camisa. Mas o pai nem olhou, fazendo a barba de alguém.

Subi os degraus do sobrado da pensão, procurei um quarto vazio. Mas não tinha cadeira, então empurrei a cama até a janela, tarefa difícil com aquela pedra nas mãos, mas botei a pedra na cama para empurrar, ufa, não é fácil ser herói.

Subi na cama. Debrucei na janela, o chão lá embaixo. Agora não haveria erro, meu amigo Zorro me iluminaria.

Fechei os olhos, botando a cabeça para fora da janela, e joguei a pedra.

O dente voou para baixo quando a linha esticou. Corri para fora, e lá vi que a pedra, batendo no chão cimentado, tinha quebrado em vários pedaços. Aí fui saber que era pedra de estimação da mãe, levei umas chineladas, segurando o dente na mão. E depois fui lavar o dente para guardar, caiu na pia, perdi.

Caetano ouviu, falou que história triste, vô.

– Eu nunca vou perder meus dentes!

Coloca todos numa caixinha. Tive vontade de dizer que um dia todos colocamos os dentes num caixão, mas o que falei foi:

– Sabe o que os dentes acham disso tudo? Dão risada!

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Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo, Folha de Londrina e Hoje em Dia. Na RUBEM, Pellegrini escreve às segundas-feiras.

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