Do verbo aprender (Ana Laura Nahas)

Posted on 21/05/2014

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Ana Laura Nahas*

Taí um dos verbos mais bonitos do mundo, pelo menos do meu. Digo isso nem tanto pelo verbo em si – transitivo, regular, aprendendo no gerúndio, aprendido no particípio, aprender no infinitivo -, mas bem mais pelo seu significado, compreender algo ou alguém pela técnica ou pela sensibilidade, pela repetição ou pela experiência, pelo exemplo ou justo o oposto.

Digo isso nem tanto pelo verbo em si – eu aprendo tu aprendes ele aprende nós aprendemos vós aprendeis eles aprendem no presente do indicativo, eu aprenderei [tomara, Deus] tu aprenderás ele aprenderá nós aprenderemos vós aprendereis eles aprenderão no futuro -, mas bem mais pelo seu significado, aceitar as diferenças, ter um olhar afetuoso sobre os fatos, as verdades, as pessoas, os encontros, o trabalho, a coisa toda.

Digo isso mais pelo significado, nem tanto pelo verbo em si – três vogais e cinco consoantes, rednerpa ao contrário, eu aprendera tu aprenderas ele aprendera nós aprendêramos vós aprendêreis eles aprenderam no mais-que-perfeito, mais-que-perfeito, como no poema:

“Ah, quem me dera ter-te como um lugar
Plantado num chão verde para eu morar-te
Ah, quem me dera ter-te
Morar-te, até morrer-te”.

Aprender nem sempre é fácil. Um arroz soltinho, por exemplo, pode demorar anos para sair. Ou passa do ponto e vira um bloco ou chega no prato como a gente às vezes chega ao fim do mês, duro de doer. A técnica jornalística também pede habilidade: bom senso, bom gosto, ética, postura, as perguntas certas, o que quem como onde quando por que, das palavras as mais simples, das mais simples as menores. Falar francês, então, nem se fala.

Andar de bicicleta, para alguns, é um projeto distante. Ou dá medo de cair, ralar o joelho, esfolar o cotovelo, destroçar o tornozelo ou dá preguiça mesmo. Entender os manuais de instrução também pede habilidade – uma habilidade, a propósito, reservada apenas aos homens de negócio ou aos técnicos, nunca aos românticos: decodificar, amplificar, alternar, ativar, Dolby Digital AC-3, DTS ou Dolby Pro Logic com entrada óptica ou coaxial, saída para subwoofer, Pan Scan 4:3PS. Falar de Física, então, nem se fala.

Tocar um instrumento impõe rigor, a agilidade exata, a embocadura certa, o ritmo preciso. Aprender ou reaprender a confiar é ainda mais difícil, como o corte e seu acabamento, o ponto e seu nó, o bordado e seu avesso.

Aprender nem sempre é fácil. Exige concentração, esforço, treino, fazer e refazer, tentar e de novo, batalhar pelo objeto do aprendizado, uma língua estrangeira, um cálculo matemático, um prato novo na cozinha, libertar o que a gente ama. Exige ensaio, persistência, determinação. Exige leitura, mais das coisas do que de livros [embora também], e às vezes silêncio.

Exige dedicação, insistência, disciplina, escrever e apagar, ler e reler, brigar pelo objeto do aprendizado, um ponto de tricô, um raciocínio analítico, um modo novo de organizar a casa, viver com simplicidade, tirar as amarras, os vestidos em excesso, os pesos, as voltas e as dores. Exige suar, ter firmeza e disposição, acreditar, insistir e às vezes mudar, outro verbo bonito do mundo, e difícil de doer.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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