Branquinha (Domingos Pellegrini)

Posted on 12/05/2014

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Domingos Pellegrini*

Leta se foi, por falência dos rins. Cachorros deviam viver cem anos, para morrer depois da gente. Enterramos ao lado do Pingo, e Bravo ficou sozinho na chácara, grandão e latidor que só ele. Latido grosso, assustador, de um cachorro com mais de quarenta quilos. Mas…

Fomos buscar companheira para ele, no SOS Vida Animal, essa entidade que tanto faz pelos cães da cidade, ou seja, por nossa humanidade. Quando Branquinha me viu, na casa albergue, praticamente pulou no colo. Carinhosa e alegre, mas deve pesar um terço de Bravo, então ficamos temerosos de briga por ciumeira.

Com todo cuidado lhe apresentamos Branquinha, tirando a bichinha do carro só depois de encher dois baldes de água, para jogar nele caso avançasse. Mas o que ele fez foi recuar assustado. Ela, ao contrário, foi farejar o grandalhão, ele imóvel feito estátua, embora estátuas não tremam de medo como notei ao lhe passar a mão pelo peito, o coração bumbava.

Então ficamos na dúvida: deixar ou não deixar Branquinha entrar em casa?

Bravo entra, quando trovoa ou quando o futebol ou a política soltam rojões. Então, falei a Dalva, Branquinha também devia entrar, ao menos no primeiro dia, para não ficar lá fora exposta ao ciúme furioso dele.

– Questão de isonomia. Se ele pode entrar, ela também deve poder.

Dalva foi contra:

– Ela chegou depois dele! Vamos acostumar ela lá fora desde o primeiro dia, sem isonomia nem mordomia!

Enquanto isso, Bravo simplesmente entrou na sala e se enrolou no rabo, como quando está com medo, e Branquinha entrou atrás, sempre farejando e querendo lamber o novo companheiro. Mas o coração dele continuava acelerado. Botamos Branquinha para fora.

Pela primeira vez, Bravo comeu na sala, ela lá na varanda, às vezes choramingando pela grade da porta, saltitando, rabo abanando, um feixe vivo de emoções.

Quando fomos deitar, carreguei Bravo para fora, ufa! Ela estava passeando pela chácara, vão acabar se entendendo, pensamos.

De manhã, lá estava ela saltitando na porta, ele sumido. Tomamos café, fomos para nossos escritórios lá no quintal e eis que passa Branquinha latindo atrás de Bravo. Ele entrou no escritório de Dalva, Branquinha ficou na porta, já ciente de que não deve entrar. Mal coloquei o grandalhão fora, ele entrou no meu escritório onde deixei a porta aberta. Carreguei para fora, ufa, e ele chispou para o porão, foi se enrolar num canto.

Carreguei para fora, já tão suado que tive de tomar banho, e temos agora de lembrar de deixar as portas fechadas, até que o grandalhão se acostume com a pequena dominante. Dalva sentenciou:

– É o poder feminino!

Bravo me olha humilde como quem diz pois é, fazer o que, sou grande mas não enfrento fêmea. E enfim a chácara tem nova dona, Branquinha, sem raça definida mas com tanta personalidade que só late raramente, como quem diz: quem tem autoridade, nem precisa mostrar!

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Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo, Folha de Londrina e Hoje em Dia. Na RUBEM, Pellegrini escreve às segundas-feiras.

 

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