Eu, comunista! (Maicon Tenfen)

Posted on 01/04/2014

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Maicon Tenfen*

Tornei-me comunista aos dez anos de idade. Culpa do meu professor da quarta série, que um dia interrompeu a aula e sentenciou:

— Os capitalistas sempre quiseram acabar com a nossa raça!
— O que são capitalistas, professor?
— Como? Vocês não sabem o que são capitalistas?
— Não.
— Bem… capitalistas… deixe-me ver… Fácil: capitalistas são aqueles que estão do lado dos ricos.
— E dos pobres, professor? Quem está do lado dos pobres?
— Ora, quem! Os comunistas, óbvio.

Se era tudo assim tão simples, passei a ser comunista, pronto, eu e o resto da turma. Guri do povo, era natural que quisesse estar junto com o povo.

— Vamos a matar, compañeros!

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Num país como o nosso, onde as elites sanguessugas não têm vergonha de expressar seu desprezo pelo populacho, é comum que professores e livros estejam impregnados de tudo que recorde, com simploriedade ou não, as correntes ideológicas ligadas àquilo que se costuma chamar de esquerda. É por isso que, quanto mais eu lia e assistia a aulas, mais comunista e mais radical eu ficava. Mil palestras frequentei na Universidade, e todas eram pautadas pela mesma lenga-lenga. Primeiro me provavam que o Brasil é miserável e subdesenvolvido (tarefa pouco difícil), depois apontavam os culpados dessa catástrofe, o FMI, os Estados Unidos, o mercado de capitais etc. E o povo, como é que ficava? Simples: massa amorfa e ignorante, sempre fomos vítimas condenadas ao sofrimento perpétuo. Quando alguém levantava o dedo e perguntava por soluções, o palestrante pedia licença para atender seu celular de última geração.

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Apesar disso, só larguei a bandeira vermelha ao dispensar os atravessadores e ler o Manifesto de Marx e Engels na fonte. Cheguei a decorar duas passagens cativantes:

1) “A burguesia produz, acima de tudo, seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inelutáveis.”
2) “Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista. Os proletários nada têm a perder, exceto seus grilhões. Têm um mundo a ganhar.”

Bela música para os ouvidos de um estudante que comia mal e dormia num quartinho cheio de goteiras. O problema é o que o Manifesto apresenta depois. Num tom populista e irresponsável, os autores começam a falar em “intervenções despóticas”, em “suprimir pela violência as antigas relações de produção” e em fazer com que o proletariado alcance “sua própria dominação de classe”.

Empunhar um fuzil para que a sociedade troque seis por meia dúzia? Antes fazer um adendo à fala do meu antigo professor:

— Os capitalistas (e os comunistas) sempre quiseram acabar com a nossa raça!

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Maicon Tenfen é escritor, autor de livros de contos, novelas e romances, além de crônicas, também publicadas no Jornal de Santa Catarina e Diário Catarinense. Por duas vezes recebeu o primeiro lugar no Concurso de Contos Paulo Leminski. Venceu também, em 2005, o Concurso de Contos de Araçatuba (SP), com A Vida e a Morte de Nick Fourier. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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