O baile de máscaras de Rosiska Darcy de Oliveira

Posted on 17/03/2014

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Rosiska Darcy de Oliveira sabe como é difícil reinventar o mundo e a si mesmo – um exercício de renúncia aos confrontos e aos algodões das verdades estabelecidas. Mas é otimista, acredita em novas configurações e na construção de uma cidade em que são tecidas relações conviviais. Mesmo com a aceleração do nosso cotidiano, com as zonas de sombra no ciberespaço, com as leis sendo incapazes de arrancar raízes de culturas perversas. Ainda assim, ela identifica em nós aquilo que está vivo e é regenerador da ética. E no meio disso está a literatura, trazendo a consolação de inventar histórias sobre o que não foi dado viver.

É justamente pela literatura que Rosiska começa “Baile de máscaras” (Rocco, 2014), seu primeiro livro de crônicas, primeiro também após a sua eleição para a Academia Brasileira de Letras. De maneira sensorial, insinuante, poética – clariciana – escreve textos como “Morrer na Praia” e “Insônia”. Promove um elogio da paixão, destaca delícias do casamento, compartilha uma noite de Natal e canta as manhãs que são vitórias, exíguas liberdades roubadas à servidão da vida real. Comemora que envelhecer não é mais sinônimo de decadência – apesar da incontornável traição dos corpos. Ah, e Clarice, essa autora que não se se alcança, incansável em seu desconhecimento de si. O sabor de reler uma crônica de Rubem Braga, renascida conforme a alma se afina. Tudo isso faz parte do novo livro de Rosiska, mulher fascinada pelo medo e que sabe ser o acaso aquele que tem a última palavra.

A partir de certo ponto, a escritora se propõe a pensar sobre alguns dos grandes interrogantes do mundo contemporâneo. Avalia os desafios da internet, o amor nos tempos da web, os crimes nos ciberespaços, a persistência do desejo de controlar, o baile de máscaras invisíveis apresentado no Facebook. Mas não deixa de acreditar na ampliação dos espaços públicos de debate e no surgimento de novos atores políticos. É através da própria rede que tem surgido o desejo insatisfeito de justiça quando a injustiça se apresenta como a ordem natural das coisas, a condenação da hipocrisia dos que invocam leis que eles mesmos não respeitam, da democracia encenada como teatro do absurdo.

Não são poucos os desafios sociais – a vida privada das mulheres diante de sua entrada no mundo de trabalho é um deles. Mas o poder das mulheres já pesa mais na balança da justiça, também é o voto delas que pode decidir uma eleição presidencial e por fim elege – uma mulher, em tempos que não se sabe o que exatamente é feminino. Rosiska acredita que em um futuro próximo aquilo que chamamos de democracia poderá ser resumido naquilo que ela tem de mais inegociável: a liberdade.

Este é um mundo em que, embora se pense globalmente, é preciso agir localmente na construção de uma cidade que ainda não existe senão em um futuro a ser inventado. É preciso discutir limites para a ciência e para o mercado – coisas há que não são negócios. No seu Rio de Janeiro, Rosiska quer demolir o mito da esperteza – quer reconstruir uma cultura, quer os cidadãos como autores da cidade. Quer, sobretudo, que o Brasil descubra que é capaz de propor ao mundo exemplos de coexistência como receita para a paz.

Tal é o ambiente deste baile de máscaras.

Henrique Fendrich

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