Livro acusa cronistas de terem apoiado o Golpe Militar

Posted on 11/03/2014

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Juremir Machado acusa Carlos Heitor Cony, Rubem Braga e outros escritores de terem apoiado escancaradamente o Golpe Militar; pesquisadora Ana Karla Dubiela rebate. 

 

Artigo publicado pelo  Portal Vermelho:

* Juremir Machado 

Estou com livro novo. Escrevi “1964 golpe midiático-civil-militar” para me divertir. Trabalhei como um cão, mas senti prazer. De que trata realmente meu livro? De como jornalistas e escritores hoje cantados em prosa e verso apoiaram escancaradamente o golpe: Alberto Dines, Carlos Heitor Cony, Antonio Callado, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resend, Otto Maria Carpeaux, Rubem Braga e outros.

Alguns, como Cony, arrependeram-se ainda na primeira semana de abril. Outros só mudaram depois de 1968 e do AI-5. Alguns permaneceram fiéis ao regime. Os mais espertos, como Alberto Dines, reescreveram-se.

Como sempre em meus livros, apresento as provas. O poeta Drummond, que deveria ser uma antena da aldeia, só captou o senso comum conservador do seu bairro: “No caso do Sr. Goulart a verdade é que ele pediu, reclamou, impôs sua própria deposição”.

A lógica do poeta, bom de verso e péssimo de reflexão social, era a do machista que culpa a minissaia da mulher pelo estupro. Jango provocou os militares com sua obsessão por reformas, como a agrária, que só fariam bem para o Brasil.

O caso mais impressionante de apoio ao golpismo foi o de Alberto Dines, diretor de redação, à época, do Jornal do Brasil. Dines, atualmente, dirige site Observatório de Imprensa, site de crítica de mídia. Jamais fez um bom mea-culpa.

O homem que agora posa de decano do jornalismo comprometido com a democracia era, em 1964, um golpista a serviço do pior do Brasil: “Só podíamos dedicar um único editorial contra cada ato ou falação de Goulart. No dia seguinte, já havia outros para atacar”.

Dines não pôde se conter: “Jango permitira que na vida brasileira se insuflassem tais ingredientes que, para extirpá-los, seriam necessários não mais o ‘jeitinho’. Desta vez, teriam de ser empregadas a força e a violência”. Alberto Dines apoiava a queda de Jango, ansiava pelos militares, tentava ajudá-los assustando cada vez mais a população.

Antonio Callado, que se tornaria um ícone da resistência à ditadura, foi um medíocre preparador da atmosfera para o golpe. Escreveu: “O triste, no episódio tão pífio e latrino-americano da deposição de Jango, é que realmente não se pode desejar que as Forças Armadas não o traíssem”. Callado praticou o sensacionalismo mais barato.

Tentou encontrar razões psicológicas para as atitudes de Jango em sua condição física: “Ao que se sabe, muitos cirurgiões lhe garantiram, através dos anos, que poderia corrigir o defeito que tem na perna esquerda. Mas o horror à ideia de dor física fez com que Jango jamais considerasse a sério o conselho. Talvez por isso tenha cometido o seu suicídio indolor na Páscoa”.

Já Carlos Heitor Cony ajudou a escrever os editorias “Basta!” e “Fora!”, publicados pelo Correio da Manhã, nos quais se clama pelo despeito à Constituição e pela deposição do presidente. Tudo porque Jango mexer nos muitos privilégios dos ricos. Dou essa palhinha. Deixo o essencial para quem ler o livro, que poderia se chamar também origens ou consolidação da imprensa golpista.

*Juremir Machado é escritor e jornalista.

 

Em resposta à inclusão do nome dos cronistas Carlos Heitor Cony e Rubem Braga entre os que apoiaram “escancaradamente” a  Ditadura Militar, a jornalista e pesquisadora Ana Karla Dubiela divulgou o seguinte texto:

 

O ato e o fato 

por Ana Karla Dubiela

Como jornalista e estudiosa da obra de Rubem Braga, permito-me fazer ao autor deste bombástico livro, alguns questionamentos: repórteres, cronistas, editorialistas e colaboradores da imprensa viviam, no período da ditadura, férrea censura. Escreviam cada linha sob a pressão de, pelo menos, dois olhares atentos, que determinavam o que poderia ou não ser publicado: o do dono na empresa de comunicação e dos sensores governamentais. É com indignação que vejo nomes como Alberto Dines, Cony, Braga, entre outros, sendo questionados em sua integridade, fartamente comprovada dos anos 60 do século passado até os dias de hoje. Por um editorial ou texto, muito provavelmente orquestrado por outrem, condena-se um profissional/poeta que ficou conhecido pelos anos em que construiu uma imagem bem diversa do que o livro de Juremir Machado, escrito, segundo o próprio autor “para se divertir”, quer que acreditemos.

Só para citar os exemplos que mais conheço: Alberto Dines tornou-se referência nacional de nossa categoria, tanto ao escrever o livro sobre o papel do jornalista como em seu observatório crítico. Cony eternizou sua posição política na coletânea O ato e o fato. Rubem Braga, perseguido pela polícia e preso três vezes pela ditadura getulista, é um dos fundadores do PSB e reconhecido como jornalista de esquerda, tendo se destacado também por uma consciência ecológica ainda insipiente em sua época, por campanhas pela educação e contra o ensino de religião manipulador e eleitoreiro e, principalmente pela crítica social – como atestam os livros A traição das elegantes pelos pobres homens ricos – uma leitura da crítica social em Rubem Braga (Edufes, 2007) e Um coração postiço – a formação da crônica de Rubem Braga, ambos de minha autoria. Ao ler notícias como esta, farejo uma caça às bruxas tão injusta e inconcebível como a própria ditadura militar. 

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