Rachel de Queiroz contra a máquina

Posted on 26/02/2014

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No fundo todo cronista tem uns três ou quatro temas fundamentais a que sempre recorre. Para Rachel de Queiroz, uma das nossas mais profícuas cronistas, esses temas eram relacionados ao dissabores do progresso e o seu culto à máquina. Ela não se adaptava e dizia que o próprio homem não estava condicionado ao tipo de progresso que criou. Enxergava a máquina como a suprema aspiração do homem da sociedade de consumo, capaz de lhe enriquecer a vida com músicas, imagens, informação e arte – capaz de fazer tudo no lugar dele, proporcionando um meio ambiente artificial e ameno sem as agressões do ambiente natural.

Rachel não imaginava que chegaria aos anos 2000, pois dizia que teria enjoos dos prodígios mecânicos dessa época, das torres de centenas de andares, das loucuras astronáuticas, dos carros terrestres ou voadores correndo a mais de mil quilômetros por hora, dos transplantes de órgãos, da mocidade permanente conseguida a poder de bisturi e drogas. Preferia morrer antes, e com dignidade – ou seja, longe das máquinas de um hospital. Embora não tenhamos chegado ainda aos carros voadores, é pouco provável que Rachel se sentisse satisfeita em meio as tantas maquininhas portáteis que cada vez mais tomam o nosso tempo.

Essas são inquietações que abrangem boa parte das crônicas de “As Menininhas e outras crônicas” (José Olympio, 1976) , escritas quando a autora já passava dos 60 anos mas ainda se mostrava bastante interessada nas novas tendências da sua sociedade – a própria crônica-título discute a independência feminina e algumas dificuldades nesse processo. Rachel se mostrava atenta à modernidade e ansiava por um ponto de coexistência pacífica que garantisse a sobrevivência do ambiente natural da Terra com a existência do homem civilizado.

A cronista mantinha posições firmes sobre temas como a poluição, o uso de armas de fogo, a linguagem dos jovens, e arriscou palpite até nas discussões de um sínodo dos bispos. Constatava que nenhum vivente foi criado com destinho ao trabalho. Talvez também por isso é que, como boa cronista, se encantava com os pássaros e preencheu várias crônicas com andorinhas, graúnas e bem-te-vis. Vez ou outra se recordava algum episódio que viveu no seu Ceará ou em viagem pelo Amazonas.

Mas a sua reflexão mais frequente foi  mesmo a de que o homem moderno não foi feito para o ritmo da vida atual – no caso, a vida dos anos 70. Rachel tinha a impressão que o tempo havia encolhido. E notou com tristeza que o homem tinha mesmo tendência para viver no quente e apertado das cidades urbanas. Mas às vezes era preciso reafirmar o óbvio, e Rachel não deixou de concluir o seu bonito livro com a incisiva afirmação de que dinheiro não traz felicidade.

Como se vê, as provocações da cronista Rachel de Queiroz continuam bastante atuais.

Henrique Fendrich

rachel_menininhas

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