João Ubaldo e as tradições de Itaparica

Posted on 04/02/2014

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(Foto: Bruno Veiga) 

João Ubaldo Ribeiro escreve com a pena da galhofa. A tradição é de fato machadiana e teve em Nelson Rodrigues um dos principais expoentes. É o tipo de texto em que o gracejo e sobretudo o exagero contam muito. Em “Arte e ciência de roubar galinha” (Nova Fronteira, 1998), esses elementos são aplicados em crônicas que, na sua maioria, tem como cenário a ilha de Itaparica, moradia de João Ubaldo. Seus personagens insólitos, seus hábitos exóticos e suas curiosas crendices são abordadas de maneira a provocar riso, no tempo em que ainda não existia politicamente correto.

Mas verdade seja dita que a principal vítima da ironia de João Ubaldo é ele mesmo. Este é um dos méritos do autor, que não teme se expor ao ridículo em suas crônicas. A sua própria condição de escritor e jornalista não é levada a sério e pouco lhe vale diante das sagradas tradições praticadas na Ilha de Itaparica. Por lá o que conta são coisas como a quantidade de filhos homens, ter um cágado em casa para garantir a saúde da criança, ou saber o jeito certo de comer moqueca de baiacu sem se envenenar.

João Ubaldo também não se cansa de apregoar a sabedoria zoológica da Ilha de Itaparica que, a despeito dos mais improváveis cruzamentos entre animais, continua sendo solenemente ignorada pelo especialistas na área. Suas crônicas são habitadas por muitos cachorros, papagaios, morcegos e, como sugere o título do livro, galinhas. É uma curiosa vida praticamente interiorana, repleta de pescarias e sempre a evocar a expulsão dos holandeses no século XVI.

Embora tenha alguns parênteses longos e que fazem perder a meada da narrativa, João Ubaldo escreve de maneira precisa e fluente e há bons diálogos inseridos nessas crônicas. Inteligente, o escritor não chega a aderir ao noticiário na escolha dos seus temas, mas as salpicadas que dá aqui e ali mostram que está por dentro das atualidades. “Arte e ciência de roubar galinha” é uma excelente maneira de conhecer Itaparica e ao mesmo tempo o estilo de um poucos escritores da ABL que se dedica ao gênero da crônica. Vale ótimas risadas.

O livro pode ser acessado pelo Scribd.

Henrique Fendrich

galinha

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