M de mar e música (Madô Martins)

Posted on 31/01/2014

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Madô Martins*

O verão tatuou em mim um biquíni de pele: nestas quenturas litorâneas, só não está moreno quem não nasceu para ser. Janeiro se despede com recorde de temperaturas e, claro, de consumo de energia. Ar condicionado deixou de ser um luxo para se tornar uma questão de saúde, quando se convive com o que antes só parecia acontecer no Rio: 40 graus. Nunca a casa foi tão abrigo, nunca se tomou tanto banho de mar, mesmo sob as eternas ameaças de doenças de pele, hepatite e outros males, nunca se bebeu tanto gelado.

A praia me chama logo cedo, com seus encantos recém-descobertos. E lá vou eu, sem resistência, tomar posse do mar, do sol, da brisa marinha. Bens que sempre tive, mas pouco notava, distraída com ocupações que já não fazem parte da rotina. Este ano, o tempo me pertence e extraio dele o melhor que cada dia puder oferecer: boa companhia, bons passeios, boas fotos, experiências inusitadas e bem-vindas.

Só agora, por exemplo, descubro ser capaz de remar e o quanto é divertido. Só agora, começo a me habituar a andar de short a qualquer hora, eu que antes sacrificava qualquer conforto pela elegância. Só agora, tenho ganas de viver intensamente, saboreando cada instante, eu que só queria ficar quieta no meu canto, lendo ou escrevendo. Penso que, ao menos temporariamente, deixei de ser como Quintana, que dizia apenas assistir à vida. Ela e o verão me invadiram sem pedir licença e me fizeram refém, a tal ponto que dependo de ambos para ser feliz.

Constato com prazer que a inicial de meu nome gravada na palma das mãos também serve para mar e música. Talvez no outono e inverno lembre mais memória e moleton, mas por enquanto, é uma letra leve e ensolarada. O mar se faz presente até mesmo nos sonhos, quando enfrento ondas gigantes ou encontro ilhas encantadas. E música combina redondinho com o verão, seja no som ligado antes mesmo do café da manhã, seja na trilha sonora que todos carregamos na alma e toca ao menor estímulo. Há dezenas de canções com letras que falam de morenas, barquinhos, sol e mar, entardecer… Impossível não levar alguma na bagagem sonora que me acompanha pela areia.

O olhar, por sua vez, pede outras imagens, de amplos horizontes a conchas, do desenrolar das ondas a aves marinhas, de embarcações a carrinhos de vendedores ambulantes, cada qual com sua profusão própria de cores. E, mal agradecido, despreza janelas, relógios, tudo que de alguma forma limite ou cerceie a liberdade rasgada que o calor propõe.

Areia é outro sintoma da estação. Vem para casa na sacola de praia, nas sandálias, nas roupas, e basta um mínimo descuido para que se espalhe pelos cômodos. Sai com água, mas às vezes alguns grãos resistem e ficam pela ducha, nas dobras da bolsa, na palha do chapéu, nos brinquedos das crianças. Vai nos contagiar por, pelo menos, mais um mês, até que o sol abrande suas labaredas e nosso instinto reinicie a volta aos interiores – ambientes menos expostos, atividades mais contidas, próprios dos meses amenos.

Por enquanto, persiste o arco-íris das vivências solares, descontraídas, pulsantes. Que não trazem M nas iniciais, mas igualmente nos motivam e inspiram, como o mar e a música…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 600 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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