Fernando Sabino e a mulher do vizinho

Posted on 22/01/2014

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Embora faça todo sentido que o nome de Rubem Braga seja mais lembrado do que os outros ao se falar em crônica, é preciso destacar o esforço impressionante que Fernando Sabino fez a favor do gênero. Durante a maior parte de sua vida o escritor se dedicou à crônica – que por muito tempo foi diária – e por isso é dono de uma das maiores produções no gênero, notadamente qualificada. Embora se reconheça como seu estilo os textos divertidos do cotidiano, pode-se dizer que Sabino variou bastante entre as suas crônicas. E livros como “A mulher do vizinho” são bons exemplos da força do seu texto.

Uma boa parte das crônicas do livro são historietas bem humoradas, como aquelas que fizeram a fama de Sabino na crônica, cheias de episódios inusitados e desfechos não previsíveis. Muitas dessas histórias são abertamente ficcionais, bem ao gosto do escritor, enquanto que em outras o cronista se insere como personagem – ocasiões em que faz bom uso da auto-ironia, como feito tradicionalmente pelos cronistas. Há um número razoável de textos que tem como motivação a burocracia e os absurdos das repartições e empregos públicos, coisa que também foi conhecida de perto pelo escritor.

Mas Sabino não é apenas bem-humorado: também é terno e dotado de grande consciência humana e social, bastante preocupado com a realidade de miséria e injustiças ao seu redor (muitas crônicas são exemplo disso, como “Notícia de jornal”, “A culpa é da sociedade”, “Piscina” e “Minha casta Dulcinéia”). De pequenos episódios domésticos o cronista também consegue extrair momentos de profunda reflexão (“A máquina do tempo”, “A pera”, “Reflexões de banheiro”). A beleza de suas observações atinge seu ápice justamente na crônica que encerra o livro, “Dez minutos de idade”.

E isso com aquela  linguagem limpa e clara, como poucas em nossa literatura. Fernando Sabino é, assim como Rubem Braga, outro sinônimo para crônica.

Henrique Fendrich

mulherdovizinho 

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