O relato do carpinteiro José (Maicon Tenfen)

Posted on 24/12/2013

0



Maicon Tenfen*

Bela e discreta como uma flor de tamareira, Maria era tudo para mim. Primeiro amei-a em silêncio, eu, quase um velho, que trabalhava como carpinteiro ao lado do seu pai. Depois me aproximei mais da família, que decidiria o destino da jovem, e noivamos com planos de construir uma casa nas cercanias do vilarejo. Levantamos os esteios em mutirão e, quando nos preparávamos para ajustar a cumeeira, uma desgraça se abateu sobre mim: Maria apareceu grávida!

— Crápula! — disse o pai de Maria, enquanto corria atrás de mim com um facão. — Recebo-te em meu lar, dou-te de comer e beber, adorno-te de cuidados e confiança… e o que fazes? Ages como uma serpente!

Logicamente, não tive oportunidade ou mesmo coragem de dizer que eu ainda não havia conhecido Maria no, digamos assim, sentido bíblico da palavra. Desse modo, as coisas se tornaram bastante claras para mim: ou perdia o pescoço, ou assumia a criança e levava adiante os planos de casamento. Mas, por incrível que pareça, a situação ficou ainda mais complicada. Um anjo me apareceu em sonhos e disse que a gravidez era obra do Espírito Santo.

— Ah, tá bom, muito bonito mesmo! Esse tal de Espírito Santo pinta e borda com aquela desmiolada e eu é que tenho de pagar o pato?!

— Não, José, não estás entendendo a importância de teu papel nesta história. Tudo faz parte de um plano divino para salvar a humanidade. Deves educar a criança para que se torne o Messias.
Mais bobagens para cima de mim! Então não aparece um messias a cada semana e em cada esquina das nossas aldeias? Se os judeus não fazem outra coisa a não ser fabricar e ignorar os seus messias, por que o meu filho — quer dizer, o filho desse libertino Espírito Santo — haveria de ser o verdadeiro? Seja como for, o facão do meu sogro ajudou-me a seguir as recomendações do anjo.

Casei-me então com Maria, que teve o azar de conceber durante uma viagem que fizemos a Belém. Pobre e lascado que sou, sem dinheiro para pagar hospedagem, tive que invadir uma estrebaria e improvisar o berço da criança numa manjedoura. Não fosse o bafo fedorento das vacas, o menino teria morrido de frio. Ora, Messias! Quem nesse mundo dará ouvidos a um bastardinho que nasceu como indigente?

__________

Maicon Tenfen é escritor, autor de livros de contos, novelas e romances, além de crônicas, também publicadas no Jornal de Santa Catarina e Diário Catarinense. Por duas vezes recebeu o primeiro lugar no Concurso de Contos Paulo Leminski. Venceu também, em 2005, o Concurso de Contos de Araçatuba (SP), com A Vida e a Morte de Nick Fourier. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Uncategorized