As moedas sujas de Luís Henrique Pellanda

Posted on 23/12/2013

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(Imagem: Rafael Dabul) 

Cronistas costumam ser grandes observadores. Com esse olhar atento, descobrem pequenas sutilezas do cotidiano, normalmente em lugares pouco interessantes à primeira vista. Aquilo que é miúdo, por vezes desprezível, é o que o cronista irá passar adiante em seu texto. A sua habilidade fará com que esses achados ganhem importância – e mais, que às vezes se revele neles a própria essência da vida. Ao longo de “Asa de Sereia” (Arquipélago Editorial), o cronista Luís Henrique Pellanda mostrou o fruto da sua garimpagem em Curitiba. Encontrou muita coisa – muito dinheiro na rua, como diz a sua metáfora. Mas assume: nem sempre as moedas estavam limpas. Mesmo assim, Pellanda as embolsou e tratou de fazê-las circular de novo. Como resultado, temos uma das melhores coletâneas de crônicas dos últimos anos.

Definida a sua área de atuação como a capital do Paraná, no máximo se estendendo até o litoral, o cronista se propôs a uma meticulosa reelaboração dos cenários, personagens e histórias que lhe serviram de motivação. Apropriando-se de maneira admirável da ficção, escreveu textos para nunca mais se negar a dimensão literária da crônica. Por vezes, brincou com as possibilidades de rumo para a sua crônica. E, sobretudo, criou imagens vivas, figuras marcantes, e desenvolveu com minúcia episódios de pouca ação concreta.

O simples caminhar na calçada pode revelar cenas da maior literatura. Porque nela o cronista enxerga alguém que age de maneira curiosa, que se relaciona de maneira muito peculiar com o mundo ao seu redor, que tem histórias singulares para contar. São pessoas que estão por toda a cidade e que interessam ao cronista a ponto de fazê-lo mudar de trajeto para acompanhá-las. É o velho bêbado que tinha amor mas não sabia onde aplicar, o sujeito que entregava filipetas às árvores, o homem que vendia espelhos em frente à Catedral, o septuagenário que dançava sozinho na entrada de uma galeria, o velho índio que falava sobre um polaco no Mato Grosso. Gente que com a sua sujeirinha acaba revelando muito da nossa própria.

Há dramas episódicos, como o do rapaz que caiu para trás e cabeceou o asfalto ao atravessar a Cruz Machado, ou o do namorado que desferiu um gancho de direita na companheira e fez sua peruca voar longe, e por vezes esses momentos descambam para o lírico, como no caso dos dois punks mendicantes que, enquanto se digladiavam, também se beijavam sob a chuva. É de se notar a beleza com que descreve o encontro no sinal de três homens na traseira de um caminhão de lixo com um Gol carregado de moças da classe média. São especialmente representativas de sua capacidade de observação e criação crônicas como “Furtar destinos” e “O espírito da fera”. Também é o que acontece nos pequenos recortes de “Meus vizinhos, seus amigos, teus irmãos e o diabo”, que mantém o mesmo espírito em doses mínimas e bem captadas.

No mais, é um cronista que entra em igrejas para ver os seus projetos de eternidade, que observa as santinhas locais no Cemitério Municipal, que reflete sobre um Capão Raso, bairro da sua infância, já tragado pela especulação imobiliária, e que aprecia as árvores da sua cidade – além dos pássaros, como todo cronista, embora também neste caso eles possam estar literalmente sujos. Existe uma certa unidade no olhar que Pellanda lança sobre o mundo e isso faz com que, ao longo do livro, ele mesmo se torne um personagem. E um personagem que dá gosto de se ler e que parece alçar a crônica a uma dimensão que muitas vezes lhe foi negada.

Henrique Fendrich

asa de sereia

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