A menina que não sabia se ajoelhar (Mariana Ianelli)

Posted on 30/11/2013

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Mariana Ianelli*

Ela iria escrever essa história, quando fosse uma escritora. “A menina que não sabia se ajoelhar”, Etty Hillesum. Mas depois de cair de joelhos, mais de uma vez, depois de viajar até o campo de Westerbork, em 1942, Etty não pensava mais em ser escritora. Simplesmente escrevia. Com aquela ironia muito fina que tinha herdado do pai, às vezes até com alegria, ela contou como eram seus dias num campo de trânsito.

Porque não só de passarinhos ou de uma janela para o jardim se fazem as crônicas, Etty fala dos círculos do inferno, das páginas da história sendo escritas por aqueles que chegavam a Westerbork, vindos de Buchenwald, de Dachau, de Amersfoort, que chegavam a Westerbork e então partiam outra vez, agora no famigerado trem das terças-feiras, para algum lugar do leste de onde as notícias não voltavam.

Tudo é ambivalente nessas crônicas. Uma multidão de cabeças raspadas e o pôr do sol sobre os tremoceiros roxos. Tempestades de areia e gaivotas. Um guarda com sua metralhadora pendurada nas costas, colhendo flores, e aquele homem que um dia fez sua mochila e partiu num dos trens por conta própria.

Algumas cenas do campo são quase idílicas, tão irreais quanto a própria desgraça. Etty numa noite de verão comendo repolho junto dos tremoceiros, Etty deitada no seu catre e a Ursa Maior sobre os barracões. Porque nem tudo nesse inferno é torre de vigia, arame farpado, lamaçal. Há também alguém lendo Rilke para um amigo, há uma indignação profunda mas limpa de rancor, e de repente a sensação de que a vida parece diferente, que também ela se infiltra num campo de trânsito e coexiste com o horror.

Como membro do Conselho Judaico, Etty podia voltar a Amsterdã de tempos em tempos, mas em Amsterdã Etty sentia saudades de Westerbork, dos amigos, do seu catre, do prato miserável de repolho. Mais absurda do que a vida naquele lugar era continuar vivendo como se toda aquela gente não estivesse sendo deportada, ela pensava.

Quando seus pais e um dos seus irmãos desembarcaram em Westerbork, Etty não quis mais deixar o campo. Tentou o quanto pôde manter a família fora das listas dos transportes, até conseguiu que escapassem uma vez e outra. Em setembro de 1943, ela escreveu pela última vez, para uma amiga, já no meio de um vagão abarrotado. Seus pais e seu irmão iam no mesmo trem. Em 30 de novembro veio a notícia, pela Cruz Vermelha. Completam 70 anos, hoje, que Etty Hillesum morreu em Auschwitz.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia 
Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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