O futuro nas mãos (Rubem Penz)

Posted on 29/11/2013

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Rubem Penz*

Há quem acredite que o futuro pode ser visto na palma de nossas mãos. Em suas linhas, nossos caminhos e descaminhos, avanços e tropeços, surpresas e confirmações. Toda nossa história contada ali, em primeira mão, na mão. Foi por causa delas que Gerson e Marlene se conheceram. Ambos com boa parte do sustento garantida pelas mãos: modelos fotográficos especializados.

Nos catálogos de lojas e prospectos de supermercados, em anúncios de taças, ferramentas, utensílios, toalhas, cremes e eletrodomésticos, lá estão as mãos de Gerson ou de Marlene. Você mesmo deve ter visto centenas de vezes, sem imaginar que a mesma mão que opera a chave de fenda, vende também o telefone celular; ou aquela com o pano sobre o fogão é a que ostenta uma caneta tinteiro importada, duas páginas depois.

A rotina das fotos aproximou os dois. Com essa mãozinha do destino, começaram a namorar e se casaram. Viviam uma relação convencional, com Gerson mais fora de casa do que Marlene, pois também é corretor imobiliário. O complemento de renda da mulher advém da comercialização de produtos de beleza de uma marca famosa – usa suas mãos, inclusive, para atestar a qualidade do creme hidratante, fustigadas pelos afazeres do lar.

Papéis estáveis até o dia em que Marlene abre o jornal e vê Gerson (na verdade suas mãos) com uma esponja verde lavando uma panela. Comenta à noite. Pois é, responde ele, fora um trabalho recente. Mais duas semanas e lá está o marido trocando o refil do vaso sanitário no catálogo do supermercado. Desta vez ela nada fala – apenas marca a foto e a deixa estrategicamente sobre o balcão da pia do banheiro. O marido trocando as fraldas de um nenê na reportagem do dia dos pais é a gota d’água: precisavam discutir a relação.

Hoje, Gerson arruma, lava e cozinha. Tornou-se até cliente de Marlene na compra de cremes hidratantes: precisa preservar o patrimônio para seus contratos de fotografia. O futuro chegou, e já estava desenhado em suas próprias mãos. Resta saber, apenas, se Marlene será a escolhida para o folder especial de dia das mães de uma loja de departamentos: na capa e em sete outras fotos, uma mão de mulher anuncia espetos de churrasco, furadeira, pincéis e ferramentas. Tudo indica que uma mão leve a outra…

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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