Antonio Prata nu, de botas

Posted on 05/11/2013

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“Nu, de botas” (Companhia das Letras), o novo livro de Antonio Prata, é provavelmente a coisa mais divertida lançada este ano. Em grande parte isso acontece porque o escritor, ao se propor a missão de revisitar passagens marcantes da sua infância, assume o ponto de vista da criança, que evidentemente ainda não entende o mundo ao seu redor e por isso arranja para si explicações das mais estapafúrdias.

As lógicas e conjecturas típicas de uma criança e sua confusão em compreender os adultos proporcionam alguns dos melhores momentos do livro, e garantiram que o autor passasse com louvor no teste de universalidade em meio às memórias pessoais. Não é um livro nostálgico, não à maneira clássica e individualista de quem celebra o próprio passado.

Também não se trata de um simples relato de acontecimentos e sensações. Antonio Prata usou a ficção para consertar e aperfeiçoar episódios de sua infância, e os descreveu em textos de difícil classificação, ficando em algum lugar entre a crônica e o conto. Aparentemente, os textos também funcionariam isoladamente, mas é visível a força que eles têm em conjunto. Personagens como os amigos da vila, os pais, as irmãs e a empregada se repetem ao longo dos textos e favorecem um sentimento de identificação com o cenário.

Sentimento que é reforçado pelas situações embaraçosas que Antonio Prata se coloca. Sua resistência ao uso de cueca, por exemplo, de repente se torna ameaça de humilhação pública. E sua viagem de carro com a família de um amigo lhe traz duas urgências: fazer cocô e evitar a todo custo que qualquer um naquele carro descobrisse que precisava fazer cocô. A inocência do pequeno Antônio, que não entendia porque alguém queria ver mulher pelada, que acreditava poder nadar até a África, que não sabia que podem existir pessoas sem perna, também torna o personagem bastante simpático e nos lembra da nossa própria ingenuidade.

Além do riso, que é abundante, há certa beleza na maneira com que o autor reconstrói a sua vida de criança, que também era composta de momentos graves, como a conversa com o pai sobre a morte, a fantasia sendo derrubada pela escola, os terríveis amores do primeiro ano. Também há algumas sagas, como a dos animais de estimação na casa dos Prata ou a disputa pelo brinquedo mais legal da vila, além de histórias impagáveis como as de “Ça Ce Ci Co Çu” e “Blowing in the Wind” que contribuem para fazer deste um livro de leitura extremamente prazerosa.

E que merece ser tão bem sucedido quanto “Meio Intelectual, Meio de Esquerda”.

Henrique Fendrich

 

 

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