Dez anos sem Rachel de Queiroz – por Elvia Bezerra

Posted on 04/11/2013

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Segue artigo publicado pelo Blog do Instituto Moreira Salles:

 

Algumas das agendas de Rachel de Queiroz

Algumas das agendas de Rachel de Queiroz

Uma década antes de sua morte, Rachel de Queiroz ganhou o prêmio Camões, concedido pelos governos do Brasil e de Portugal, e viu sua obra começar a ser relançada pela editora paulista Siciliano, que num leilão ruidoso arrematara o direito de publicação por 150 mil dólares.

Não terá sido sem espírito de comemoração que ela deixou o Rio naquele novembro de 1993 com destino à Europa. Estava com 83 anos e fazia a viagem de despedida ao continente que já visitara outras vezes. No passeio, que começou na cidade alemã de Frankfurt, teve o cuidado de levar na bolsa uma pequena agenda, fininha e em branco, de 1992, em que se deu o trabalho de passar liquid paper nas páginas de novembro e dezembro, adaptando o calendário do fim do ano anterior para 1993. Habitualmente usava agendas grandes, tamanho livro, e como não podia viver sem anotar os compromissos de mandar crônicas aos periódicos para os quais colaborava, alterou a agenda nova do ano velho de maneira a manter em dia sua rotina de cronista viajante.

É estranho que ainda precisasse registrar o envio de textos, tarefa que cumpria com rigor havia mais de 50 anos. Mesmo assim, sacramentou a remessa de “O primeiro mundo começa no Reno”, crônica que escreveu da Alemanha e que seria publicada no jornal cearense O Povo de 13 de dezembro de 1993. Mais encantada com o impressionante trabalho de reconstrução de prédios e interiores das casas de Colônia do que com a famosíssima catedral da cidade, ainda visitou Bonn antes de partir para Paris.  ”Crônica enviada”, anotou, depois de remeter, por fax, o texto “As duas Berlins, as duas Alemanhas”.

Os jantares no Le Bristol, na capital francesa, as compras e outros passeios não a desviavam da função de cronista, iniciada na imprensa de Fortaleza quando ainda não passava dos 17 anos e já reivindicava o direito do voto feminino – como se lê no artigo “Essa questão do voto feminino”, publicada no jornal A Jandaia, de 14 de janeiro de 1928. Teria que esperar até 1934 para ver as mulheres irem às urnas.

Depois, na lendária “Última página” da revista O Cruzeiro, escreveria crônicas durante trinta anos, de 1945 a 1975. A fidelidade a essa revista e a constância com que colaborou para outros periódicos serviram de base para a recusa ao convite do então presidente Jânio Quadros, que a queria ministra da Educação de seu governo: “Sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista”, justificou, ao declinar do chamado. Esquecia por um momento que era a escritora de O Quinze, de 1930, o romance “em que tudo é vivo mas nada chama a atenção”, como observou Davi Arrigucci Jr. E se admitirmos que apenas fingia esquecimento, teimava: “Eu não sou uma romancista nata. Os meus romances é que foram maneiras de eu exercitar o meu ofício, o jornalismo”, diria ela em outra ocasião.

Naquele ano de 1993, Rachel passou o réveillon em Paris, de onde pegou o avião para Nova York em 4 de janeiro de 1994. De lá, continuava a mandar crônicas para O Povo, de acordo com a sua agendinha remendada que, junto a muitas outras, integra o seu arquivo, sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde 2006. Mostram que o hábito dos almoços e jantares festivos não se restringiam às viagens. Eram refeições compartilhadas com amigos no cotidiano movimentado no Rio, fosse como anfitriã ou convidada. Acontecia de ir a jantares três dias seguidos, alguns precedidos também de almoços igualmente comemorativos. Isso para não falar nos longos cafés da manhã com Lúcia Riff, a agente literária que se converteu em amiga, nome assíduo nos registros da escritora, fosse para a primeira refeição do dia ou para as seguintes.

Quem viu a nobreza franciscana da prateleira da cozinha, ou a sala de jantar de sua fazenda Não me Deixes, no município de Quixadá, no Ceará, em fotos de Edu Simões, pode entender o que significava para Rachel a parte da casa em que as pessoas se reúnem para, comendo juntas, protagonizarem o ato simbólico da união, como dizia o escritor e crítico alemão Novalis.

Agenda de 1992 usada em 1993 [clique na imagem para ver em tela cheia]
Agenda de 1992 usada em 1993 [clique na imagem para ver em tela cheia]

Eu mesma pude testemunhar isso no único encontro que tive com ela. Na década de 1990, eu escrevia um livrinho de crônicas ensaísticas cujo personagem principal é Manuel Bandeira. Por causa do poeta de Pasárgada, entrava na história Jayme Ovalle, o compositor de Azulão. Consegui, então, ser recebida por Rachel no seu apartamento da rua Rita Ludolf, no Leblon, no prédio que leva seu nome. Nove horas da manhã, marcou ela, que como boa sertaneja devia achar isso alta manhã.

Nascida naquele mesmo sertão, em Mombaça, a poucos quilômetros de Quixadá, eu via de longe a fazenda Não me Deixes quando passávamos na Rural Willys de meu pai, a caminho do Colégio da Imaculada Conceição, em Fortaleza, o mesmo colégio onde estudara Rachel. Olhava com veneração para o lugar onde morava a colaboradora de O Cruzeiro, revista que recebíamos como uma espécie de bíblia semanal atualizada. Para meu pai, a leitura feita com devoção, sem jamais esquecer a “Última Página”. Para mim, criança, as fotos impressionantes, cujos autores eu só conheceria em 2011, quando o IMS fez uma exposição sobre o fotojornalismo naquele periódico. Não cheguei a dizer nada disso na entrevista, que tinha como objetivo o depoimento dela sobre Ovalle.

Toquei a campainha exatamente às nove, e ela mesma abriu a porta. Levou-me para a sala e nos sentamos em duas cadeiras de palhinha. Senti-me confortável. A palhinha me trazia de volta o mobiliário da minha própria casa, adequado para o clima quente do sertão do Nordeste. Mas meu à vontade durou segundos. Rachel era rápida demais. Pôs as duas mãos sobre as coxas com tanta determinação que fez um barulhinho: “Estou pronta”, falou, me olhando nos olhos. Depois da batidinha nas coxas, tudo dependeria de mim. Por que, meu Deus, falou assim tão positiva? Deixou-me nervosíssima e, felizmente, não me lembro da primeira idiotice que balbuciei. Só lembro que, mais adiante, quando começamos a falar em Manuel Bandeira, eu disse de cor o soneto “Renúncia”. Aquele que começa “Chora de manso e no íntimo…ProcuraCurtir sem queixa o mal que te crucia:/ O mundo é sem piedade e até ririaDa tua inconsolável amargura“.

Percebi que tinha causado boa impressão, mas queria mesmo era ir embora dali. Rachel era rápida demais. Tinha um tipo de raciocínio fulgurante, me nocauteou em dois segundos, sem fazer qualquer esforço. Esgotada, me dei por satisfeita com o depoimento sobre Ovalle e agradeci, fazendo menção de sair, cismada com o fato de ela não me ter oferecido sequer um copo d’água. Estava certa de que nossos ritmos não combinavam e eu certamente a incomodava. Engano. Ela guardava o melhor para o final, quando, sem batidinha nas coxas nem nada, se levantou, me pegou pelo braço, levando-me para a cozinha. Tinha acabado de receber queijo coalho da Não me Deixes e fazia questão que eu o experimentasse ali mesmo.

A cozinha do Leblon guardava um pouco da fartura de fazenda. Vários queijos empilhados, rapaduras, garrafas de melado e uma informalidade respeitosa. Comemos o queijo, generosa fatia do melhor queijo coalho, com café. Ainda assim, pouco depois eu me despedia, exaurida.

De volta ao Brasil, em janeiro de 1994, Rachel de Queiroz retomou a vida social, tão frenética no Rio quanto em Fortaleza, onde não se furtou a ir a uma caranguejada. Mais uma vez no Rio, a cidade que adotara, os almoços e jantares passaram a ser intercalados com exames no laboratório Lamina, consultas médicas, remédios para diferentes tipos de mal-estar, dietas. Nada que a impedisse de escrever para o Suplemento Feminino de O Estado de S. Paulo de fevereiro de 1997 a março de 2001, aos 91 anos, além de publicar também no Correio Brasiliense, o Diário de Pernambuco e O Povo.

Manteve o hábito da boa mesa até o fim da vida. Sua última agenda, aos 90 anos, é de 2000, encerrada com assinatura em letra trêmula, quase ilegível. Nascida em 17 de novembro de 1910, morreu em 4 do mesmo mês, em 2003, poucos dias antes de completar 93 anos.

Elvia Bezerra é coordenadora de literatura do IMS.

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