Clarice Lispector descobre a crônica

Posted on 29/10/2013

2



Clarice Lispector iniciou em agosto de 1967 sua colaboração como cronista semanal do Jornal do Brasil. Sem experiência no gênero, a escritora foi tateando o seu novo espaço e descobrindo aos poucos o melhor meio de preenchê-lo. Por várias vezes demonstrou sua insegurança e, embora humilde, hesitava em se dizer parte de um gênero que é a própria humildade da literatura.

Perguntava a Rubem Braga o que era a crônica e dizia temer que as suas estivessem ficando pessoais demais. O sabiá rebatia que era impossível fazer crônica sem ser pessoal. E foi provavelmente por essa mesma característica que, logo no começo, Clarice conseguiu forte identificação com os seus leitores.

Embora alguns mais conservadores tivessem medo que o jornal prejudicasse a literatura de Clarice, grande parte dos leitores parece ter apreciado bastante esse contato semanal com a escritora, que começou a receber cartas, geralmente muito carinhosas, respondendo e dialogando com as inquietações e reflexões que ela havia exposto em suas crônicas.

E Clarice parece ter gostado dessa interação, tanto que respondia a muitos dos seus leitores através do próprio jornal, por vezes chegando a transcrever trechos inteiros das cartas que recebia. Com elas também chegavam muitas flores, e houve um dia em que uma vizinha, sua leitora semanal, decidiu se apresentar e se ofereceu para lhe cozinhar polvo com arroz.

Em termos de conteúdo, Clarice muitas vezes usava o espaço da crônica para reflexões interiores, meditações sobre a sua literatura, descrições de encontros, conversas, visitas e situações corriqueiras do cotidiano – justamente aquelas que costumam cair melhor ao gênero da crônica.

Estão entre as crônicas mais marcantes do livro aquelas que tem como personagens as suas empregadas, os choferes dos táxis que pegava e ainda os seus dois filhos (“Lembrança de filho pequeno” é arrebatadora). Algumas das mais bonitas são as que Clarice usa para lembrar episódios da sua infância no Recife, expediente também bem comum ao gênero.

Quase sempre, Clarice não usava o espaço no jornal de maneira única, com um único texto corrido do começo ao fim: dividia-o em diversas notas, algumas bem pequenas, com reflexões rápidas, às vezes alguma citação. Também havia muitas explicações para os críticos, que pouco a compreendiam.

Os textos de Clarice no Jornal do Brasil (1967-1973) pegaram uma época bastante turbulenta na vida política e social do país, mas a escritora confessava não serem esses os assuntos sobre os quais pretendia escrever, ficando a exceção por conta da engajada “Carta ao Ministro da Educação”. Aqui e ali, no entanto, notícias mais gerais costumavam ser citadas.

Também foram reproduzidos em suas crônicas muitos esboços de contos e novelas inteiras, uma delas durando cinco edições do jornal. São textos que a distanciam da tradicional crônica e dão a impressão de que Clarice compreendia o seu espaço no jornal como o do folhetim – que não era um gênero, mas justamente um espaço para se publicar todo tipo de texto. Estes estão entre os seus textos mais difíceis em jornal.

Entre os bons momentos estão as entrevistas, conversas, visitas ou mesmos perfis que Clarice traçou de nomes como Alceu Amoroso Lima, Pablo Neruda, Chico Buarque, Tom Jobim, Carlinhos de Oliveira, Millôr Fernandes, Marques Rebelo, Isaac Karabtchevsky e Pedro Bloch.

Não deixa de ser curioso também ver que a frágil Clarice também era capaz de ser venenosa, como na ótima e absolutamente irônica “Crônica social”. Clarice também fez muitos textos “ao correr da máquina”, como ela mesma dizia, que não tinham tema definido: apenas escrevia conforme as ideias lhe apareciam – também este um expediente típico da crônica.

E no fim das contas Clarice parece ter se divertido com esse período (chegou até a fazer brincadeira de primeiro de abril em um texto). A coletânea “A descoberta do mundo”, com quase todos os textos de Clarice para o Jornal do Brasil, é um forma de conhecer melhor Clarice Lispector e vê-la mais humana, sem os superpoderes que a crítica e muitas vezes os fãs costumam lhe atribuir. Nela, Clarice está frágil e bonita. Como uma crônica.

Henrique Fendrich

A Descoberta do Mundo
Clarice Lispector – 480 páginas – Rocco

A edição nova mais barata custa R$ 41 no site da FNAC.

Na Estante Virtual é possível encontrar edições usadas por até R$ 30.

O livro também está disponível no Scribd, para leitura no computador.

Alternativamente, procure nas bibliotecas de sua cidade.

 

Posted in: Uncategorized