Diálogos Impossíveis e finalmente um Jabuti para Verissimo

Posted on 21/10/2013

2



Coube a “Diálogos Impossíveis” (Objetiva, 2012) o mérito de, finalmente, dar a Luis Fernando Verissimo um Jabuti na categoria Contos/Crônicas (ainda assim, em consequência da desclassificação do contista Sérgio Sant’Anna). A maior premiação literária do país já havia premiado livros de crônicas como o do poeta Ferreira Gullar e um do Carpinejar, mas ainda não havia se rendido ao texto ágil, criativo, divertido e ainda por cima popular de Verissimo (absurdamente, o Jabuti havia premiado primeiro um romance de Veríssimo, “Os Espiões”, em 2010).

O que também não significa que “Diálogos Impossíveis” seja um livro notadamente superior às suas outras coletâneas de crônicas. Seus textos mantém o estilo já conhecido do escritor, em que o humor é peça tão importante que até mesmo a ficha bibliográfica classifica a obra como “humorismo brasileiro”, e não crônicas ou, vá lá, contos. Mas Verissimo também gosta de falar a sério (ainda que, como mostrou RUBEM, os leitores gostem menos desses textos), e nesta mesma coletânea estão incluídas três ou quatro crônicas que, nitidamente, não possuem o objetivo de fazer humor – e tampouco são diálogos impossíveis.

Uma prosa fluente como a de Verissimo costuma ser muito favorecida pelo uso dos diálogos. Nesta obra especificamente, a proposta é reunir alguns desses diálogos mais criativos, como o encontro do Drácula com o Batman numa clínica geriátrica na Suiça, a conversa de Robespierre com o seu executor, ou Don Juan seduzindo a Morte. Evidentemente, esses são diálogos impossíveis, mas a maioria dos textos da obra premiada pelo Jabuti são aquelas pequenas histórias cotidianas com conversas até bastante verossímeis (verissímeis?), apesar de todo o inusitado aplicado pelo cronista (ou justamente por conta dele).

São principalmente os textos nesse estilo que garantiram o lugar que hoje Verissimo ocupa no gênero da crônica, com méritos que, agora oficialmente, se estendem à avaliação crítica. Seus personagens, nada óbvios, divertem, ainda que não a ponto de uma gargalhada, e numa análise mais detalhada insinuam pequenos desesperos da nossa condição humana. Aqui e ali, é possível deduzir opiniões do escritor sobre temas maiores (às vezes mais abertamente, como na crônica “Revelações”, que sugere uma visão sobre o polêmico tema das biografias).

Veríssimo também gosta de brincar com as palavras, o que certamente explica a precisão do seu texto. São qualidades que se observa nesta obra mas que também se estendem pela sua produção. Mais do que “Diálogos Impossíveis”, a escolha do Jabuti parece fazer justiça exatamente a esse conjunto.

Henrique Fendrich

Posted in: Uncategorized