Um cronista nada cego em Ipanema

Posted on 20/09/2013

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Há mais de 50 anos, quando jovens mulheres ainda eram chamadas de brotinho, Paulo Mendes Campos lançou “O Cego de Ipanema”, o seu primeiro livro de crônicas. E elas, os brotinhos, foram presença certa em seus textos, alvos da sua observação e do seu encantamento (é deste livro a famosa “Ser Brotinho”).

Por vezes, Paulo Mendes Campos se debruça sobre um tema como se fosse dissertar sobre ele, mas o que mais faz é ressaltar detalhes ínfimos, colecionando lembranças e comparações, nem sempre compreensíveis, mas raramente óbvias, em meio a frases permeadas pela sua poesia.

Existem aqueles textos em que a forma tem grande importância. O cronista prende a atenção do leitor, não revelando de todo o significado de sua linguagem e de seu conteúdo, coisa que só fará nas últimas frases, quando enfim se compreenderá a lógica de sua argumentação.

Paulo Mendes Campos promove algumas viagens líricas, como a gaivota que sobrevoa Ipanema, a fantasia das crianças tratadas com seriedade, a fábula dos animais que fizeram uma eleição para o rei do universo. Suas viagens reais, as lembranças do avô e da vó são temperadas pelo mesmo clima.

Sobra espaço também para o humor, especialmente em textos como “Uma geração perdida”, “Lagartixa”, “Salvo pelo Flamengo” e “Torre de Babel”, mas também para a dor de “A morte de um homem grande”, a singeleza de “Minhas empregadas”, o mergulho filosófico de “Atletas”.

E a observação de episódios prosaicos, como na crônica que dá título ao livro, ou a discussão de relacionamentos, e ainda as pequenas histórias, também bonitas, separadas por um asterisco.

São características que contribuíram para marcar a identidade de Paulo Mendes Campos como cronista e que reforçam a necessidade de se conhecê-lo mais a fundo, coisa que, esperamos, pode ser facilitada com a recente republicação de seus livros de crônicas.

Henrique Fendrich

 

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