Ruy Castro e o passado correndo solto

Posted on 10/09/2013

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“Chega de saudade”, escreve Ruy Castro, querendo com isso negar a pecha de nostálgico que de vez em quando tentam lhe atribuir. E, de fato, Ruy Castro sempre repetiu que antigamente não se vivia melhor do que hoje, e que cada geração sempre preferiu a anterior. Em sua nova coletânea de crônicas, “Morrer de Prazer”, no entanto, Ruy Castro parece deixar o passado correr solto – se não para sentir falta, ao menos para mostrar que foi bem vivido.

E ao fazer isso, também provoca o confronto entre a sua geração e a atual. Assim é que o cronista se espanta com pessoas que moram com os pais até os 39 anos (e aproveita para comentar que no seu tempo se saia de casa o quanto antes para se jogar na vida), revolta-se contra a parafernália tecnológica a que somos cada vez mais dependentes (e aproveita para se posicionar como um dos três ou quatro sujeitos que nem mesmo têm celular) ou lamenta a perda dos espaços de convivência das cidades (lembrando sempre dos que existiam).

São características que contribuem para a visão de alguém em conflito com o mundo contemporâneo, brincando inclusive que no futuro haverá uma reserva só para pessoas como ele, assim como acontece aos índios. Em muitas crônicas Ruy discute o legado da geração dos anos 60, reconhecendo ideias que vingaram e outras nem tanto. O cronista também parece bastante preocupado com a língua, o uso indevido de frases ou expressões, as tendências que fazem perder o sentido original das palavras. Mesmo nisso é possível enxergar um conflito de gerações.

Como está na moda entre os livros de crônicas, também este é desnecessariamente dividido em capítulos que tentam enquadrar os textos com temática semelhante. Um deles reúne textos que envolvem prazeres culinários e outro fala em cinema, uma das paixões de Ruy, que aproveita para fazer inclusive alguns textos mais próximos do ensaio, acrescentando informações que não foram publicadas originalmente no jornal.

Os últimos capítulos são essencialmente autobiográficos e tratam dos problemas de saúde de Ruy, sua relação com a ciência, a vida e a morte. Ruy é um dos nossos bons cronistas e escreve de maneira clara e objetiva, pontuando aqui e ali com sacadas divertidas. Suas discussões são pertinentes e sua visão de mundo também. Não é um livro excepcional, mas a leitura é rápida e está cheia de bons momentos – o que, obviamente, não inclui a capa.

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