Mariana Ianelli, tão rara quanto um tigre

Posted on 03/09/2013

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(foto: Petronio Cinque) 

Há três anos, a poeta Mariana Ianelli aceitou o convite de Rogério Pereira para fazer parte do elenco de cronistas do site Vida Breve.  Foi a sua primeira experiência rotineira com a prosa – até então havia feito apenas alguns textos esparsos, e sem muita razão de ser, pois Mariana não vê motivo para escrever e deixar o texto guardado. E durante o ano em que se manteve no posto de cronista, Mariana descobriu um gênero apaixonante, que inclusive lhe abriu caminho para interagir com outros gêneros da prosa, como o ensaio, a reportagem e os diários de viagem.

Mas mesmo nesta prosa o que Mariana mais faz continua sendo poesia. Muito se valoriza a prosa poética dentro de crônica, mas nem todas produzem a mesma sensação de encanto. É como se a poeta tivesse tomado para si uma frase lançada ao longo de suas crônicas: “Nada perdemos de sensatez no gosto pela fábula, de realismo no prazer da metáfora, apenas saímos da condição de miséria para a qual nos arrasta a falta de magia”. Já bem distantes dessa triste condição, é que podemos concluir que Mariana Ianelli é uma cronista rara – tão rara quanto um tigre.

A comparação vem da crônica que dá nome à coletânea “Breves anotações sobre um tigre”, lançada recentemente e que contém a maior parte dos textos que Ianelli já havia publicado no site Vida Breve. São textos curtos, mas cheios de pequenas belezas tiradas da observação do cotidiano, do noticiário, da vida de pessoas que admira ou de dentro de si e de sua família.

RUBEM conversou com a autora para saber um pouco mais de sua relação com a crônica.

RUBEM: “Breves anotações sobre um tigre” é o seu primeiro livro de crônicas, fruto da sua experiência também inédita como cronista semanal no site Vida Breve. A pressão de ter que publicar uma crônica a cada semana chegou a atrapalhar um texto tão bem trabalhado como parece ser o seu? Que diferenças sentiu nessa atividade em relação à do poeta?

MARIANA IANELLI: Descobri o quanto a crônica é apaixonante graças ao Vida Breve. A colaboração semanal foi um desafio, mas escrever com prazo, nesse caso, funcionou como um estímulo, porque a crônica se alimenta desse dinamismo. O primeiro texto, sim, foi difícil, demorei para atinar que o começo devia ser justamente esse, dizer qual era o meu ponto de partida. Foi então que me veio a imagem de um quadro, um retrato de minha mãe, pintado pelo meu avô quando ela tinha seis anos de idade. Essa pintura de interior foi o que acabei fazendo no começo e, a partir do tema da biblioteca de casa, parti para coisas que são, de alguma maneira, familiares a todo mundo. A maior diferença que vejo em relação à poesia é na combinação entre luz e velocidade. É como se a crônica deixasse passar mais luz e viesse daí maior agilidade. É como eu vejo.

RUBEM: Recentemente você disse que a poesia inevitavelmente acaba habitando a crônica e se tornando um espaço muito propício para a oficina poética. De que maneira você trabalhou para conciliar a poesia da crônica com o seu eventual vínculo à realidade?

IANELLI: A poesia rebenta da realidade, é aquele momento sabático. Se não mergulhamos nela, na crônica, pelo menos molhamos os pés. É como abrandar o passo e ficar um pouco à sombra. Precisamos disso, desse tempo conosco sem o fantasma daqueles mil outros compromissos. No Vida Breve, minhas crônicas entravam aos sábados, então o espírito era esse, falar do sábado que existe numa notícia, por exemplo, ou trazer esse espírito do sábado para as coisas de todos os dias.

RUBEM: Em seu livro também há referências a muitas histórias tiradas da vida de artistas, notadamente escritores. No fundo eles têm mais a dizer do que escrevem? E a mistura de lirismo e relato, que é comum à crônica, faz dela o gênero apropriado para que essas histórias venham à tona?

IANELLI: Existe essa mistura, claro, a vida e a literatura se interanimam, e é entusiasmante transitar por aí, pôr olhos não só nos livros mas sobretudo neste outro Livrão da vida, como dizia o Raduan Nassar. De modo que somos duas vezes leitores, claro que nem sempre em dia com a vida ou com os livros…mas isso que rodeia e alimenta a literatura, que antes tem a ver com a vida, e não com literatura propriamente dita, é justamente matéria da crônica, o que faz dela tão instigante, tão viva e amiga do leitor. É como se a crônica nos chamasse para a leitura deste outro Livrão da vida, fora dos livros.

RUBEM: Há uma crônica em que você fala sobre algumas cidadezinhas, aldeias e ilhas que ocupam o noticiário apenas em caso de tragédias, e não por suas coisas pequenas mas extraordinárias do dia-a-dia. A posição do cronista diante do noticiário, e a sua em especial, não é mais ou menos isso que você sugere, ou seja, segredar a existência desses outros mundos?

IANELLI: Sim, é abrir uma fresta, um rasgo no espaço do noticiário para entrar ali onde as notícias raramente chegam. Segredar é uma ótima maneira de dizer, porque a crônica atenta para essas coisas extraordinariamente sutis que, na verdade, estão quase sempre muito perto de nós e só dependem de ser percebidas. Existem tantos e tantos mundos, resta dar lugar a essa sutileza e torná-la foco da notícia, como, por exemplo, a temporada de hanami no Japão. É uma bela metáfora da crônica, a floração da cerejeira ser notícia nos jornais, como realmente acontece, e isso atrair a atenção de pessoas do mundo inteiro. É aí que a poesia conversa com a crônica.

RUBEM: Todas as crônicas são ilustradas por desenhos de seu pai, e os próprios textos parecem criar imagens e personagens vivos. Como enxerga a relação das suas crônicas com as imagens que evocam?

IANELLI: Essa parceria com meu pai foi preciosa porque, além de ser um grande leitor e um artista, ele divide comigo esse afeto dos espaços familiares. Há uma crônica, por exemplo, em que falo das reuniões que costumavam acontecer na casa dos meus avós, em outra crônica falo da oficina que existia naquela casa, e, como meu pai conhecia bem esses espaços, ele recriou a atmosfera do texto nos desenhos, além do que, existem paixões que nos são comuns e estão lá, nos textos, como a música de Leonard Cohen ou mesmo o tema da pintura. Essa empatia acabou tornando a parceria super afinada. O curioso é que também o traço dele evoca, visualmente, as linhas de um texto, como no retrato da poeta Sophia de Mello Andresen, então existe nas ilustrações essa mesma sugestão de vida e literatura interagindo.

RUBEM: Alguns textos sugerem um distanciamento dos holofotes da vida literária, como quando você fantasia com um mundo de livros anônimos ou quando cita Lobo Antunes e a sua fuga do espetáculo. Como você lida com as exigências da literatura que estão além de simplesmente escrever?

IANELLI Acredito que a maior exigência, para além de escrever, é mesmo a vida fora dos livros, não o espetáculo. No fim das contas, passamos desta para melhor e ficam os livros. Então penso que resta trabalhar, além de viver tanto quanto possível. Mas, para um escritor, esse trabalho precisa ser, antes de mais nada, escrever. Já o nosso tempo é tão curto que, se formos no embalo dos eventos, a própria escrita pode perder muito com isso. Acho que é preciso pesar bem para não sacrificar esse tempo, não atalhar esse trabalho solitário, porque simplesmente escrever já é muito difícil.

RUBEM: Pelo que se deduz das datas de publicação, algumas crônicas publicadas anteriormente no site não foram transpostas para o livro. Que características elas tinham que levaram a esta escolha?

IANELLI: Sim, excluí do livro algumas crônicas, não muitas. Houve inclusive crônicas que escrevi e não publiquei nem no Vida Breve. Foram textos que eu pensei em reescrever ou então trabalhar com mais calma num ensaio. Por exemplo, sobre Marguerite Duras. Mas o trabalho de reescrever é muitas vezes mais custoso que partir para um texto novo, por isso preferi deixar fora do livro, porque a crônica tem um ritmo, tem um frescor, e, se algum detalhe não está bem resolvido, é melhor recomeçar do zero.

RUBEM: Agora que não está mais entre os integrantes do Vida Breve, continua escrevendo crônicas? Aquilo que descobriu sobre a crônica nesta experiência pode lhe ser útil inclusive na sua poesia?

IANELLI: Não vejo sentido em escrever crônicas para guardar. O que acho excitante na crônica é justamente o espaço de interlocução com o leitor, aproveitando o motivo da data, o calor do momento, mesmo que o texto convide para um pouco de sombra e de silêncio. A agilidade do texto pede esse espaço, mesmo que depois esse material resulte num livro. A circunstância da data é um elemento importante, faz parte do espírito da crônica. O espaço do jornal ou da revista é onde sinto que acontece esse dedo de prosa com o leitor. O texto sendo oportuno para o momento, isso não quer dizer que ele perca sua atualidade com o tempo. Tem uma crônica no livro, por exemplo, chamada “O jogo dos anjos da morte”, sobre o fato de que não estamos longe do dia em que nenhum motivo de guerra será preciso para justificar a pura vontade de matar. Em agosto deste ano, em Oklahoma, um rapaz foi morto a tiros por três adolescentes que declararam à polícia ter escolhido um alvo a esmo, simplesmente porque estavam entediados. Ou seja, essas hipóteses estarrecedoras também estão latentes no nosso cotidiano. Os poemas, por outro lado, já transcendem o circunstancial, vão bem com o silêncio, podem esperar, guardados, e até ganham muito com isso. O que descobri sobre a crônica me abriu caminho para a prosa, não exatamente a ficção, mas alguma coisa híbrida como o ensaio, a reportagem ou diários de viagem. É por aí que ando caminhando ultimamente.

Um Mundo de Nomes – Mariana Ianelli

Não chegam notícias de Ghardaia. Não sabemos como é a vida em Sandoa. Deve existir um céu estrelado em Marbat, uma mulher deslumbrante em Kandalaksha, uma alma de poeta em Jayapura. Pode ser que ainda hoje nas ilhas Banks as pessoas tenham cada uma  sua canção particular como carta de recomendação  para o além-túmulo. Alguma delicadeza há de existir em Nanquim, algum prazer em Puerto Deseado, alguma fresca de fim de tarde em Buenaventura, coisas pequenas mas extraordinárias que façam jus à beleza desses nomes.

O que sabemos de cidadezinhas, ilhas e aldeias que de repente ocupam o noticiário do mundo é outra coisa. Sabemos de Leogane, Porto Príncipe e Carrefour porque ali a terra tremeu e esgarçou a chaga da miséria à vista de todos. Lembramos de Beslan porque esse nome evoca um massacre e cento e oitenta e seis velas acesas, uma para cada criança. Chegam notícias da ilha de Honshu depois de ter passado por ali um tsunami. Sabemos de Strasshof desde que uma menina desapareceu a caminho da escola e ressurgiu, fugida de um cativeiro, mais de oito anos depois. Dogo Nahawa muito possivelmente continuaria sendo uma aldeia escondida no mapa se centenas de agricultores não tivessem sido retalhados a golpes de facão. Nem tão cedo ouviríamos falar de Abbottabah se na madrugada de uma segunda-feira não tivessem descido
ali vinte soldados com suas metralhadoras.

Quando esses nomes musicais e antes desconhecidos tornam-se o assunto do dia não é por seus jardins de cerejeira, sua pacatez, suas canções ao ritmo da colheita, suas terras morenas e brancas. São nomes que se fazem pronunciar por alguma exorbitância à altura do mundo. Não porque falem daquelas coisas pequenas, mas extraordinárias, que segredam que não existe um mundo. Existem mundos.

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