Pellanda, a crônica e um ato de amor

Posted on 20/08/2013

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(Imagem: Rafael Dabul/Divulgação)

 

– O espaço da crônica é onde se torna mais evidente — ou urgente — aquilo que o Sabino defendia: escrever deve ser um ato de amor, só pode ser.

Embora leitor de crônicas desde a infância, o escritor e jornalista curitibano Luís Henrique Pellanda só começou a praticar o gênero em 2009, quando aceitou um convite para lançar e participar do  Vida Breve – um site de crônicas em que se revezam diariamente um escritor e um ilustrador.  Pellanda tomou gosto pelo gênero e, além de editor do site, assumiu a cadeira de cronista das quinta-feiras, e lá permaneceu até a semana passada.  

Neste período,  teve oportunidade de lançar o seu primeiro livro de crônicas, Nós Passaremos em Branco (Arquipélago Editorial), com textos publicados no site, e em outubro lançará o segundo, Asa de Sereia, pela mesma editora.  Mensalmente, assina uma crônica na revista curitibana Top View, cujo tema é definido pela linha editorial de cada edição. E, fora isso, tem falado sobre o gênero em encontros literários variados,  além de oferecer oficinas de crônicas – nos dias 26 e 27 deste mês, por exemplo, ministrará uma no festival de literatura “A Letra e a Voz”, no Recife. 

Por tudo isso, quem RUBEM entrevistou foi um escritor realmente envolvido com o gênero, que gosta de escrever mas também de falar sobre ele (“Responder sobre a crônica sempre vira conversa longa, pelo menos pra mim”, confessa). E em meio à discussões teóricas, questões de estilo, influências do jornalismo, pressão para escrever, Pellanda falou também dos leitores flutuantes, que passam voando pelo cronista e transformam a escrita do gênero em realmente um ato de amor.

RUBEM: Você oferece oficinas de crônica. Existe receita para um gênero que parece aceitar quase tudo?

LUÍS HENRIQUE PELLANDA: Não, em literatura não existe receita exata para nada, ainda bem. E, na crônica, muito menos. É a primeira coisa que digo ao pessoal que pensa em participar dos encontros. Trata-se de um gênero ecumênico, como tão bem definiu o Humberto Werneck, já sabendo que qualquer definição será sempre imprecisa. Na oficina isso fica claro — essa falta de clareza —, e logo de cara. Ninguém ali vai aprender técnicas de embalsamamento, nem virar escritor profissional com algumas horas de papo literário. O que fazemos na oficina é conversar sobre o tema proposto, naquela base do assunto-puxa-assunto, dando abertura para improvisos e acidentes, mas também encaixando aqui e ali algo de mais concreto: algumas tentativas — quase sempre fracassadas — de classificação, contexto histórico, a importância da crônica na tradição literária e jornalística brasileira, principais autores etc.

Também fazemos leituras de peças clássicas da modalidade, e de diversos cronistas, como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Clarice, Antonio Prata, Veríssimo, Sabino — e até Campos de Carvalho. Debatemos esses textos, exploramos entrelinhas, vemos esqueletos subirem à tona, juntamos as interpretações e as impressões de cada um, combinamos que não há consenso possível e seguimos adiante. Depois passamos à prática. Escrevemos crônicas ainda no calor dessas reuniões, e por aí vamos.

Na verdade, uma boa oficina de crônica deve abrir — a todos, e inclusive a mim — novas picadas de leitura e exploração de sentido. É a coisa fundamental a qualquer autor, ler, o texto ou o mundo, ou eu ou o outro. A crônica literária é um dos maiores exercícios de alteridade de que tenho notícia. É isso que treinamos e testamos e tentamos aprimorar nas oficinas.

Os contornos que separam o conto da crônica em geral ainda não são bem definidos. Como você lida com essa proximidade dos gêneros?

PELLANDA: Não vejo problema. Toda essa questão de gêneros literários foi posta em xeque já faz algum tempo, mas ainda é possível discutirmos um ou outro ponto sem parecermos anacrônicos demais. Embora nunca devamos esquecer que, para a maioria dos leitores, pouco importa se o que estão lendo é romance ou novela, conto ou crônica. Isso é fato. O gênero de uma obra, como disse o Milton Hatoum, no prefácio do seu livro de crônicas Um solitário à espreita, depende da expectativa de seus leitores. As classificações fixas interessam mais ao mercado, ou mesmo às gôndolas. Apesar disso, não há como fugir delas: é claro que eu, enquanto planejo e escrevo, entendo a crônica de uma forma e o conto, de outra.

A crônica — pelo menos a minha — precisa manter sempre um nível de conversa com o leitor, buscar certa intimidade com ele, alguma proximidade mesmo que artificial (pois literatura é também artifício), e uma linguagem que, embora pareça coloquial em alguns momentos, em hipótese alguma pode deixar de ser trabalhada e retrabalhada à exaustão — e se não houver tempo para isso, se o prazo estiver se esgotando, azar. É pressão mesmo. Outro detalhe importante: na crônica, me exponho de um modo quase que pessoal, digamos assim. Meu narrador se confunde com seu autor, sou eu “em pessoa” quem está ali, mesmo que às vezes sob uma roupagem meio ficcional. Num conto, não: mesmo quando escrito em primeira pessoa, meus narradores não me representam. Não necessariamente.

Você já chegou a dizer que hoje a crônica não precisa mais do jornal. Mas ela já consegue abrir mão de influências do jornalismo na linguagem e na escolha temática? Qual a relação possível entre a crônica literária e o noticiário?

PELLANDA: O Paulo Mendes Campos, para quem a vida não valia uma crônica, dizia — e concordo com ele — que “a única relação que existe entre o poeta, o cronista e o jornalista é a matéria-prima: as palavras”. É claro que a origem da crônica literária está no jornal, na imprensa lá do século 19, mas as coisas mudaram muito desde então. Até a época do João do Rio, um sujeito que em parte inventou a nossa imprensa moderna, que incrementou a reportagem brasileira, a crônica estava realmente muito ligada ao jornalismo e a uma ideia ainda difusa de informação. O próprio João do Rio pensava mais ou menos dessa maneira, já que dizia que a crônica era uma espécie de “espelho capaz de guardar imagens para o historiador futuro”. Ou seja, considerava-se um cronista de registro, um autor convidado a escrever para a cápsula do tempo. E sua obra, ainda viva, também tem muito disso, sim. Ele documentou o início da era das máquinas, a profissionalização da imprensa, o cinematógrafo, o avanço dos automóveis, os primeiros momentos do crescimento urbano brasileiro, as novidades tecnológicas em geral. Passada a Semana de 22, o país deu outro pulo adiante. Entraram em cena caras como Drummond, Oswald, Mario de Andrade, Tarsila, Manuel Bandeira. E a proposta, deles e dos jornais, já era outra. Logo depois, Rubem Braga, tão jovem, já assume a ponta. E deu no que deu.

Acredita que haveria alguma diferença no estilo de suas crônicas se elas fossem publicadas em um jornal diário, e não na internet? Geralmente quem lê no jornal não é o mesmo leitor de literatura.

PELLANDA: Quando escrevo para jornais ou revistas, sinto que preciso pensar que meu texto atingirá diversos leitores que certamente não me conhecem e que, nem de longe, se interessam por literatura. E tenho que chegar a eles, afinal é um trabalho, sou contratado para interessá-los. Mas, para tanto, não é preciso fazer concessões, nivelar por baixo, imaginar um leitor despreparado. Pelo contrário. Talvez isso, essa necessidade de fisgar o leitor ocasional no susto, afie ainda mais o fio da crônica (embora eu não saiba dizer como). Talvez a diferença não seja técnica, não esteja na maneira de escrever para um público tão amplo, e nem seja facilmente detectada no texto pronto; quem sabe essa diferença não esteja simplesmente na maneira de se pensar enquanto planejamos e escrevemos?

Não sei. Mas quando publicava minhas crônicas no Vida Breve, e para um público que ia até lá justamente para ler as minhas crônicas, é claro que essa tensão, ligada à boa ou à má recepção do material que produzo, era menor. Mesmo assim, essa redução de tensão era uma coisa mínima. No fundo, quando o assunto é crônica, quando escrevemos “para o dia seguinte”, para leitores flutuantes, que passam voando por nós e com sorte nos dedicam alguns minutos de atenção, é sempre assim. O espaço da crônica é onde se torna mais evidente — ou urgente — aquilo que o Sabino defendia: escrever deve ser um ato de amor, só pode ser. É querer conquistar, mas ao mesmo tempo ser generoso.

E como é pra você a questão da ficção na crônica? No jornal geralmente os leitores esperam “a verdade”, e de vez em quando acontecem confusões.

PELLANDA: Bem, nunca criei uma crônica a partir do nada, de uma invenção, embora não veja problema nisso. Crônicas ficcionais são muito comuns e também muito populares, é só conferir o sucesso que o Veríssimo faz há mais de trinta anos. De minha parte, como já disse, sempre elaborei os textos com base em algo que vivi ou presenciei. É claro que, nessa elaboração, pode entrar, e efetivamente entra, alguma ficção ou fantasia, em doses variadas, de acordo com o que cada crônica pedir. Já escrevi, por exemplo, toda uma série de crônicas sobre os demônios que habitam o centro de Curitiba, fantasmas típicos.

Agora, sobre essa questão da crônica ser ficção ou não-ficção, puxa, não dá para discuti-la nesses termos. O Ivan Angelo me parece ter resolvido isso de um jeito legal, convincente, elegante, numa entrevista recente ao Suplemento Pernambuco. Ele dizia, mais ou menos, que a crônica, sob esse aspecto, é como a poesia: tem uma subjetividade própria, intransferível. Ninguém quer saber se um poema aconteceu ou não aconteceu de fato. Trata-se de um poema, ora, um registro da subjetividade do seu autor. Com a crônica é, ou deveria ser, a mesma coisa. Para mim, é como ela deveria ser tratada.

Na Revista Topview, sua crônica é pautada pelo tema único da edição do mês. Já aconteceu de não ter inspiração para o tema escolhido?

PELLANDA: Não sei se inspiração é a palavra, mas sim, e está acontecendo de novo, neste exato momento. Ainda não defini nada a respeito da crônica que devo entregar para a próxima edição da revista, cujo tema é arquitetura. Não preciso pontificar sobre o assunto, veja bem, somente escrever acerca de algo que o tangencie, mesmo que levemente, ou indiretamente. Mas, por ora, nada. Apesar disso, preciso entregar a crônica até amanhã e, no momento, vivo essa ansiedade do vazio, do escoamento do prazo, da vergonha do nada a dizer. Enquanto respondo a esta entrevista, finjo que está tudo bem, e adio por mais algumas horas o momento terrível em que terei de encarar, mais uma vez, a velha dúvida: sobre o que escrever? No fim, sempre dá certo (quero dizer, a crônica sempre sai). Talvez esteja aí mais um ponto em comum com a imprensa: é quase impossível um jornal diário não fechar, não sair no dia seguinte.

Como você avalia o espaço atualmente dado à crônica nos jornais de literatura, nas premiações, nas bienais e feiras do livro? Nas premiações, geralmente o melhor livro de crônicas é um de conto.

PELLANDA: Há pouco a dizer sobre isso, infelizmente. Avalio tudo isso com certo pesar (embora esperançoso). Acho que, pela relevância da crônica em nossa tradição literária, e pelo espaço que — sem pieguices — conquistou no coração dos leitores brasileiros, o gênero poderia pelo menos ocupar uma categoria específica em algum prêmio literário de peso. Não seria pedir muito, mas tudo bem. Escrever crônica é também revisitar, diária ou semanalmente, a certeza de nossa desimportância. E pensando bem, para que prêmios, não é?

Nas feiras e bienais, não sei, a situação me parece melhor. Vemos muitos cronistas viajando por aí, participando de mesas. entre tantos outros, temos o Affonso, o Loyola, o Ruy Castro, o Humberto, o Ivan, o Carpinejar, o Antonio Prata, o Cuenca, o Zuenir, o Hatoum, o Tezza. Não, não vamos reclamar demais, não é bom. Aliás, falei de cronistas mais que vivos e atuantes, e gostaria de aproveitar a oportunidade para falar de uma “nova” cronista, autora genial e comovente, que acaba de lançar seu primeiro livro no gênero: a poeta Mariana Ianelli. Leiam o seu Breves anotações sobre um tigre.

Você está para lançar seu segundo livro de crônicas. Dá pra adiantar alguma coisa sobre ele?

PELLANDA: Não gosto muito de falar sobre um livro que não saiu, embora teoricamente ele já tenha sido lido por alguns leitores. É uma antologia de crônicas que já saíram em vários veículos, e é assim que tem que ser, o livro sempre será o segundo estágio da crônica, e ali ela se acomoda bem. Foi lendo crônicas em livros, e não em jornais, que comecei minha carreira de leitor, na infância — e, assim, discordo totalmente daquela triste imagem criada por Alceu Amoroso Lima, que dizia que a crônica, engaiolada entre a primeira e a quarta capas de um volume, virava um “passarinho afogado”. Mas, enfim, meu próximo livro deve sair em outubro, pela ótima Arquipélago Editorial, e se chama Asa de sereia. Espero que ele sobreviva ao salto, que alcance leitores, que faça sentido a alguém, que viva e se torne independente de mim.

 

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