Saldo positivo para as crônicas de Cristóvão Tezza

Posted on 14/08/2013

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(arte: Jonas Oliveira) 

Cristóvão Tezza é um cronista divertido, cheio de sacadas que, vez ou outra, levam inclusive à gargalhada. E isso não é de se estranhar, pois também é assim que ele se apresenta nas tantas feiras do livro e bienais pelo Brasil afora. Nesses encontros, Tezza costuma discutir temas que também estão entre os preferidos de sua coletânea “Um operário de férias”, seu primeiro livro de crônicas, lançado recentemente pela Record (veja a entrevista de Tezza sobre o livro para a RUBEM).

Assim é que a primeira parte do livro é toda dedicada a assuntos que envolvem a atividade de escritor, a literatura, a leitura e a língua. Tezza tem uma visão interessante a respeito, sempre desmistificando a visão de escritores que sabem exatamente o que fazer. E, sem ser saudosista, aproveita para discutir questões contemporâneas, como o suposto fim do papel, os e-books, os blogs, os e-mails.

A parte realmente divertida do livro, no entanto, vem a seguir, e corresponde aos temas triviais do cotidiano (aqueles que costumam fazer mais sucesso na crônica), como o ato de lavar louça, o primeiro carro do cronista, as fotografias, a abstinência da internet, entre outros. De maneira leve e auto-irônica, Tezza promove nessa parte os melhores momentos do livro.

Também se inclui nessa parte os textos que falam da sua vida como torcedor do Atlético Paranaense, que geralmente estava numa má fase de dar dó no momento da escrita de suas crônicas. Um dos textos mais engraçados é justamente “O Dentista Coxa-Branca”, que segue ao final dessa resenha.

Na sequência há textos também bem sacados sobre Curitiba e então começa a parte dos textos sérios de Tezza. É preciso dizer que essa estratégia de separar as crônicas em blocos temáticos, coisa que quase todo cronista faz hoje em dia, em geral atrapalha. Sempre há textos que cabem em mais de um bloco, e nem sempre se entende a explicação para cada um, e sempre há o risco do leitor não gostar do tema principal de toda uma fileira de crônicas. Pessoalmente, prefiro as crônicas misturadas.

E o bloco com os textos sérios de Tezza é provavelmente o que mais sofre com essa estratégia. São os temas menos afeitos à literatura – muitos envolvem política nacional e internacional. E neles não há também muito espaço para as risadinhas: Tezza é duro e incisivo, embora elegante e preciso.

Alguém poderia questionar a inclusão desses textos no livro, julgando-os envelhecidos e excessivamente jornalísticos. Sou da opinião contrária: acho que representam uma das facetas mais importantes da crônica, certamente desprezada pelos críticos literários, mas nem por isso alheia ao gênero. E não deixa de ser agradável discutir a sério com Tezza. Um livro de crônicas é, no fundo, uma grande conversa com alguém cheio de ideias a dizer.

O livro termina com uma pequena seção chamada “Ficções”, mas são ficções leves, e ainda bastante apegadas à realidade e mesmo à atualidade. No geral, o saldo do livro é positivo. Tezza é um cronista tardio, mas digno de uma boa leitura.

O que é desnecessário no livro são as notas de rodapé explicando esmiuçadamente referências locais de Curitiba e região. É certo que os leitores de outros lugares não saberão o que é Morretes ou Antonina, mas não deixa de ser um pouco provinciano querer que eles não fiquem sem saber. Além de não atrapalhar a leitura, as referências poderiam estimular uma pesquisa àqueles que realmente estejam interessados em desvendá-las.

Mas vale, vale a leitura sim. Temos tidos bons livros de crônicas lançados nos últimos meses. E nomes que vieram do romance estão sabendo se virar no gênero.

Henrique Fendrich

 

O dentista coxa-branca

Cristóvão Tezza

“Dentista é como escola – a gente só vai porque é obrigado. Sei que é politicamente incorreto falar mal dos dentistas, reforçando o preconceito contra aquela cadeira incrementada que parece nave espacial, com suas luzes e aparelhos cintilantes, mas para algumas coisas não há eufemismo possível. A essa altura da vida, sentar ali é só ouvir notícia ruim. E agüentar as broncas enquanto ele espeta nossos dentes, o cenho fechado: Quando você veio a última vez mesmo? Humm…

Segue-se a preparação, que se tempera com algum assunto leve, o tempo, vai chover, semana passada até que fez calor, de fato, nessa quadra não dá para estacionar – e ele aciona o pedal. Você começa a subir, ajusta-se a altura, ele põe o babador (é o único lugar do mundo desde a pré-infância em que alguém põe um babador em você e você não reclama), você sente a súbita inclinação, desarmado, e o panorama começa a se assemelhar a uma sessão dos torturadores do antigo DOI-Codi tentando arrancar a confissão do aparelho comunista junto com um dente: “Abra a boca”, e você obedece, olhos arregalados, o facho de luz direto no rosto. É o momento em que me vejo como uma figura de um museu de História Natural, o maxilar pré-histórico aberto com os dentões à mostra – dentes são objetos primitivos e incontroláveis, avessos à evolução natural, sobras de uma outra era tentando encaixar suas garras disformes num espaço que não foi feito para eles; e lá vem o som do motorzinho, aquela broca requintada de produção de sofrimento, tudo perfeitamente projetado para você se sentir mal.

Até aí, tudo bem. É a minha penitência. Tivesse me cuidado, nada disso estaria acontecendo. Mas, entre uma perfuração e outra, a salivada borbulhando no anzol do aspirador espetado no meu beiço, ouço a voz gentil e traiçoeira do dentista: “E o gol do Henrique Dias, hein? Estragou a festa de vocês.” Eu não posso fazer nada. Minha boca aberta está presa por uma focinheira de borracha, língua inchada pelo anestésico, o lábio formigante de nervos mal-dormidos, a broca acertando o fundo do canal com a precisão de acupuntura chinesa. “Vocês até que chegaram pertinho.” Agarro os braços da cadeira para não fazer besteira contra essa covardia coxa-branca, busco algum mantra mental que me acalme. “Dessa vez o Atlético perdeu a pose!” – e a broca avança pela caverna da minha alma.

Penso em pagar com um cheque sem fundos, o que seria pouco pelo que passei. A dúvida persiste: será que ele sabia que eu sou um atleticano tribal, que ele correu risco de vida, que o que ele fez é passível de processo no Procon? Tentei dizer algo, mas mordi a língua anestesiada, a cara intumescida – impossível assobiar. Um dia para esquecer. Respirei fundo. Meu lado zen enfim venceu. Saí de lá com uma promessa radical: ou o Atlético arruma um time decente para o Brasileirão, ou juro que nunca mais vou ao dentista.”

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