Graça, o cronista

Posted on 01/08/2013

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Imagem: Zélia Gattai

Do Portal Imprensa:

Graça, o cronista

Qualquer lista de grandes escritores brasileiros que se preze deve, por mérito, incluir o alagoano Graciliano Ramos (1892-1953). Um dos mestres do romance social, o autor deixou clássicos como “Caetés” (1933), “São Bernardo” (1934), “Angústia” (1936) e “Vidas Secas” (1938), só pra ficar em alguns. Inevitável, assim, que a faceta mais célebre seja a do romancista. Mas o autor trafegou pelos gêneros, assumindo “vozes”, como a de J. Calisto, Lambda, Lúcio Guedes, Anastácio Anacleto e R.O. (sigla de Ramos de Oliveira, seu sobrenome). Todos pseudônimos estampados em jornais muito antes de o nome Graciliano impor o respeito habitual, principalmente após deixar a prisão na ditadura getulista, em 1937.

Se havia nome postiço só para as poesias (Anastácio Anacleto), havia também os que viviam no limiar da literatura e da prosa jornalística: a crônica. Mesmo que pouco exaltado, o Graciliano cronista deixou cerca de uma centena e meia de textos, escritos entre 1915 e 1953. Esta obra tem sido estudada pelo jornalista e pesquisador da USP Thiago Mio Salla, que, depois de se debruçar sobre “Linhas Tortas” e “Viventes de Alagoas” – livros de crônicas publicados em 1962 –, lançou “Garranchos: achados inéditos de Graciliano Ramos” [Ed. Boitempo, 2012], uma compilação em sua maioria de crônicas que chegou ao público no ano passado, 120 anos depois do nascimento do autor.

Na mesma época, a biografia “O velho Graça” [referência ao apelido do escritor], de Dênis Moraes, de 1992, foi relançada pela Boitempo. Neste 2013, completam-se 60 anos de sua morte e 80 anos de seu romance de estreia, “Caetés”. Graciliano é ainda o grande homenageado desta Flip, a Feira Literária Internacional de Paraty.

Quase lá
Em 1915, chegado à capital fluminense aos 22 anos para tentar a vida de escritor, Graciliano começou a escrever crônicas para o Jornal de Alagoas como correspondente e para o Paraíba do Sul, da cidade homônima do interior do Rio. Assinava como R.O., que, diferentemente de um cronista convencional, encarnava em uma série de 13 textos uma espécie de narrador-personagem, prenúncio do futuro ficcionista.

Na voz deste narrador mordaz e sarcástico, o tema da prática jornalística aparece mais de uma vez. Em uma das crônicas, fala da diferença de abordagem de uma crítica literária sobre uma poetisa publicada em dois veículos de posições editoriais distintas: um que elogiava tudo, outro que criticava. Diz ele: “Como veem os leitores, não poupei à sonetista os encômios [elogios] que convém a uma rapariga bonita, nem as acres censuras que todo o crítico que se preza deve atirar a um mau poeta, embora o poeta vista saias e a gente não tenha lido sua obra. A coisa mais fácil do mundo é fazer crítica, fiquem sabendo, principalmente crítica literária.”

Na última, R.O. comenta sua saída da publicação, redigindo uma carta (Verdadeira ou falsa? Objetiva ou ficcional?) a Rodolfo, suposto editor do jornal, que teria criticado o cronista. Na verdade, uma banalidade: o suposto editor teria ficado insatisfeito com uma expressão usada por R.O. em um de seus textos. As crônicas do Paraíba do Sul geraram convite especial: escrever para a Gazeta de Notícias, então o maior jornal do país, em que Machado de Assis e José de Alencar já haviam tido espaço cativo. Estava quase lá. Mas… “Pesquisei o jornal no ano de 1915 e não achei nada de Graciliano, nem de seus pseudônimos”, diz Thiago Salla, que acrescenta: “Naquele ano, teve um surto de peste bubônica na cidade dele, Palmeira dos Índios, inclusive alguns irmãos dele morreram. Ele teve de voltar a Alagoas por causa dessa tragédia familiar e, mais tarde, assumir a loja do pai”.

De volta
De volta à cidade natal, abandonaria a vida de escriba por seis anos, tempo suficiente para que casasse, tivesse quatro filhos e ficasse viúvo de Maria Augusta de Barros, sua primeira esposa. Em 1921, colaboraria para o O Índio, jornal do padre da cidade, escrevendo crônicas sob os pseudôminos J. Calisto, J.C. e Lambda. Também uma voz sarcástica, focando, agora, questões triviais da cidade, a partir da qual destrinchava temas amplos. “É uma escrita marcada pelos faits devers, que, traduzindo, são ‘fatos diversos’. Então, ele toma pequenos fatos jornalísticos para daí extrair a crônica”, explica Salla.

Quatro anos depois, Graciliano começaria “Caetés”, terminado em 1928, ano em que se tornaria prefeito da pequena cidade. Nem na função burocrática o talento com a pena ficou oculto. Os relatórios de prestação de contas que escrevia ao governador Álvaro Paes ficariam conhecidos por seu veio poético, mesmo nos assuntos mais triviais. Como no trecho de 1930, em que diz no tópico “projetos”: “Há pouco tempo, com a iluminação que temos, pérfida, dissimulavam-se nas ruas sérias ameaças à integridade das canelas imprudentes que por ali transitassem em noites de escuro”.

Renunciaria em 1929, assumindo a Imprensa Oficial do Estado de Alagoas, que hoje leva seu nome. Ficou ali cerca de um ano. Entre 1930 e 1935, Graciliano publicou “Caetés” e “São Bernardo” e, além de assumir outras funções burocráticas no governo local, foi preso em 1936, ao ser acusado de envolvimento com a Intentona Comunista, de 1935. Saiu da prisão dez meses depois.

O cárcere é um divisor de águas na sua vida e obra, inclusive na cronística, que toma dois rumos. “Um que é mais literário, que vai muito mais para um conto mesmo. Além disso, como ele já está em outro patamar, há muitos textos sobre literatura, então a crônica dele vai para o lado do ensaio. O cronista inicial está mais na linha factual.”

Imprensa de ficção
É difícil definir quem carrega mais do outro: se o ficcionista Graciliano do cronista-jornalista ou se o cronista-jornalista do ficcionista. “Apesar de ser difícil situar essas fronteiras, talvez eu veja mais a influência do texto dele sobre o jornalismo do que o contrário.” A partir dos anos 1920, com a influência dos modernistas nos jornais, a linguagem jornalística elimina ranços de beletrismo e simplifica o tom.

Graciliano pode ser sido como um modelo deste literato que ajudou a transformar a imprensa, já que, além da prosa enxuta, coesa, concreta e substantivada, também atuou como copidesque, espécie de redator/revisor de jornais em sua fase madura. Após deixar a prisão, exerceu a função, por exemplo, no Correio da Manhã. Deixou sua marca, literalmente, nas páginas dos jornalões da época.

Outro ponto liga sua obra ficcional ao jornalismo: a própria imagem da imprensa refletida em seus romances. Em “Angústia”, o clima de opressão que abate o protagonista – um funcionário público que também colabora para a imprensa – traz um esboço de luta de classes entre o jornalista e o proprietário (burguês) do jornal, ideia coerente com um Graciliano que se declararia “oficialmente” comunista em 1945.

No romance de estreia, “Caetés”, o homem que ousa escrever como ofício aparece nas várias facetas da personagem central: do escriturário, do colaborador de jornal e do “homem comum” que planeja um romance. Sobra ainda espaço para a passagem memorável de “São Bernardo”, em que o autoritário coronel Paulo Honório, indignado com as críticas que recebe do jornal da cidade vizinha, viaja para ter com o jornalista responsável. Não hesita em dar-lhe uma surra. Bastante simbólico. “O episódio mostra a maneira completamente interesseira dessa imprensa marrom da época que usa o expediente da extorsão para conseguir dinheiro. Você tem o embate de duas violências: a física, do Paulo Honório, e a intelectual, que essa imprensa praticava”, explica Salla.

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