Estação Literária especial sobre crônica

Posted on 31/07/2013

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A Estação Literária, publicação semestral do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina, abordou em sua 11ª edição o tema “A crônica a partir de 1930”. A publicação conta com artigos que refletem teoricamente sobre o gênero e alguns dos seus principais expoentes, como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, e outros que merecem ser mais conhecidos pela sua produção no gênero, como Cecília Meirelles, Graciliano Ramos,  Joel Silveira, Guimarães Rosa, entre outros.

A publicação pode ser baixada na íntegra aqui e artigo por artigo aqui

Abaixo, segue a apresentação do também pesquisador Luiz Carlos Simon para a publicação.

 

APRESENTAÇÃO: A CRÔNICA RELIDA

2013 é o ano dos centenários de nascimento de dois grandes escritores que se tornaram expoentes como cronistas, Rubem Braga e Vinicius de Moraes. A iniciativa de Estação Literária, ao propor um número da revista dedicado integralmente à crônica, vale, assim, como homenagem e, ao mesmo tempo, constitui resultado de observações de que há espaço para uma publicação como essa, tanto no que se refere a leitores interessados no assunto quanto no que diz respeito às pesquisas em andamento. O debate tantas vezes repetido sobre a falta de estudos em torno desse gênero precisa, afinal, ser superado. Mas tal superação, por sua vez, precisa acontecer sob a forma de ocupação dos espaços, de preenchimento das lacunas.

A resposta ao investimento de Estação Literária é uma prova do desejo de reverter essa situação: em seções muito bem idealizadas e divididas, vinte e quatro artigos são aqui disponibilizados ao leitor que ainda poderia estar carente de reflexões teóricas sobre a crônica e de exercícios analíticos voltados para a produção dos cronistas. A origem dos colaboradores é diversa: os estudiosos enviaram suas colaborações de diferentes instituições de ensino superior do Rio Grande do Sul, do Paraná, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, de Goiás, do Pará, do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul.

Entre os cronistas abordados desponta também um amplo conjunto de interesses. Se nosso centenário Rubem Braga, quase exclusivamente cronista, é o eleito de sete dos ensaios reunidos, o foco, na maior parte dos trabalhos, se divide em múltiplas direções: nomes muito lembrados por sua atuação no gênero, como Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Antônio Maria e Fernando Sabino; escritores de grande projeção às vezes negligenciados como cronistas, como Graciliano Ramos, Mario de Andrade, Cecília Meireles, Clarice Lispector e Guimarães Rosa; autoras cujo impacto poderia se manter em limites regionais, como as matogrossenses Maria Dimpina Lobo Duarte e Maria de Arruda Muller; autores que precisavam mesmo ser recuperados para pesquisas, como Joel Silveira e Brito Broca; e cronistas de outras nacionalidades, como os portugueses José Saramago e Lobo Antunes e o norte-americano David Foster Wallace, recente, assim como nosso Caio Fernando Abreu.

Outros cronistas do século XX não tiveram suas produções mais detalhadamente comentadas, mas foram citados por mais de um articulista. São os casos de Humberto de Campos, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Sérgio Porto, Vinicius de Moraes, Carlos Heitor Cony e Luis Fernando Verissimo, entre outros. Antes deles, nomes que pavimentaram a trajetória da crônica no cenário brasileiro foram constantemente lembrados na condição de relevantes precursores: José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac, Raul Pompéia, Lima Barreto, João do Rio, Benjamin Costallat e Carmem Dolores.

As perspectivas utilizadas para as abordagens nos trabalhos revelam uma amplitude teórica bastante eclética. Encontram-se nas páginas desse número, filtrados pela reflexão dos autores dos ensaios, os pensamentos de Bakhtin e Barthes, Genette e Todorov, Foucault e Eco, Derrida e Deleuze, Baudrillard e Lyotard, Marx e Benjamin, Homi Bhabha e Gayatri Spivak, Linda Hutcheon e Judith Butler, Sartre e Beauvoir, Bauman e Bourdieu, Propp e Eickenbaum, Raymond Williams e Eric Hobsbawm, Octavio Paz e Giorgio Agamben, Carlos Reis e Antoine Compagnon, Merleau-Ponty e Michel Collot, além de muitos outros.

Vale ainda ressaltar que os autores desses estudos recorreram a um elenco nacional repleto de nomes fundamentais para esses exercícios ensaísticos que se dispuseram a dialogar com a história e com a crítica literária. São citados vários dos que compõem a bibliografia básica sobre a crônica do século XX, como Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Eduardo Portella, Massaud Moisés, Davi Arrigucci Júnior e Jorge de Sá. Estão presentes referências significativas para os estudos literários, como Roberto Schwarz, Silviano Santiago, Luiz Costa Lima e Flora Süssekind, mesmo que eles não se detenham especificamente sobre a crônica, e nomes expressivos do meio acadêmico, como Luiz Roncari, Eneida Maria de Souza, Marlyse Meyer e Edgar Nolasco. Em decorrência do vínculo dos ensaios com áreas afins como jornalismo, história e mercado editorial, aparecem alusões a estudiosos que, há algum tempo, vêm se ocupando dessas articulações da literatura com outras searas, como Margarida de Souza Neves, Sidney Chalhoub, José Marques de Melo e Isabel Travancas. E já se abrem espaços para pesquisadores que, mais recentemente, estão atentos ao mapeamento do gênero, como o biógrafo de Rubem Braga, Marco Antonio de Carvalho, Charles Kiefer, Carlos Ribeiro, Miguel Sanches Neto, Gabriela Kvacek Betella e este que assina e conclui a apresentação, recomendando, com entusiasmo, a leitura desse material e manifestando a convicção de que os estudos sobre crônica ingressam definitivamente em nova era.

Luiz Carlos Simon

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