Tezza: Um operário em férias (e o mundo vindo abaixo)

Posted on 20/06/2013

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 – Um leitor protestou: mundo vindo abaixo e eu escrevo aquelas bobagens para rir? O que é engraçado, não?

Cristóvão Tezza é um cronista recente – começou há apenas cinco anos, após receber convite da Gazeta do Povo, de Curitiba, em meio ao estrondoso sucesso que teve com o romance “O Filho Eterno”, de 2007. Logo nos primeiros meses, Tezza percebeu que o leitor é figura importantíssima na crônica, como revelou em entrevista publicada também pela RUBEM.

De lá pra cá foram mais de 250 crônicas, das quais o jornalista e tradutor Christian Schwartz selecionou 100, divididas em sete temas, e com elas foi feito o primeiro livro de crônicas de Tezza (“Um operário em férias”, lançado recentemente pela Record).

Agora RUBEM ouviu Tezza sobre  sua experiência com a crônica neste período, a efemeridade do jornal, o formato da crônica em livro, a relação com o leitor e com o jornalismo.  E descobriu que nem o cronista conseguiu escapar das manifestações que atualmente ocorrem por todo o país.

RUBEM: Você começou a escrever crônicas há apenas 5 anos. Neste período conseguiu identificar alguma singularidade do gênero que não imaginava quando era apenas leitor?

CRISTÓVÃO TEZZA: O dia a dia da crônica, para quem escreve, muda completamente a percepção do gênero que o leitor costuma ter. A principal singularidade é este toque extra-literário, o contato concreto com o jornal, com o leitor e com a realidade do dia que a crônica provoca. Do ponto de vista exclusivo do gênero, senti a pressão do espaço curto (que o leitor também não sofre…) e até de alguns imperativos da linguagem de jornal (há uma “etiqueta” sutil na prática do gênero que a literatura, em si, desconhece completamente).

RUBEM: Livros de crônicas costumam privilegiar os textos não datados. Mas não é uma pena saber que escreveu várias outras crônicas que nunca mais serão lidas? Como lida com essa questão da efemeridade do jornal?

TEZZA: O cronista paga o preço do gênero que pratica; não dá para reclamar de um colete por não ter mangas. A efemeridade é um traço essencial da crônica, e, justo por isso, ela sobrevive apenas quando o estilo, a graça, ou mesmo o documento de uma época ou de um instante, sobrepujam o lado puramente informativo do texto. Isso absolutamente não me preocupa. Aliás, não me preocupa nem quando escrevo literatura. Escrevo para o meu tempo.

RUBEM: Alguns teóricos acham que o problema das crônicas em livro é que elas são lidas em sequência, e assim perdem o impacto que causam ao serem lidas isoladas no jornal. Não faz um certo sentido? No fim das contas o leitor só consegue se lembrar de algumas crônicas bem específicas.

TEZZA: Acho que a leitura em sequência tem qualidades que o texto avulso do jornal não tem. De certa forma, o leitor vai se familiarizando com um jeito de ver as coisas, com os toques da linguagem, com o humor do cronista, página a página. Eventualmente, a leitura em conjunto pode favorecer o cronista, dar a ele uma consistência que a página avulsa, lida ao acaso, muitas vezes não tem.

RUBEM: Você recebe muitos e-mails comentando as suas crônicas? Essas respostas dos leitores já chegaram a influenciar o assunto de seus textos?

TEZZA: Sim, recebo periodicamente comentários de leitores, e às vezes algumas observações me levam a desenvolver temas imprevistos. Um exemplo concreto: na terça-feira em seguida aos protestos que correram o Brasil, saiu uma crônica de humor sobre um outro tema, por um simples acidente – tive um final de semana problemático e acabei soltando um texto “de gaveta”, que todo cronista guarda para emergências. Um leitor protestou: mundo vindo abaixo e eu escrevo aquelas bobagens para rir? O que é engraçado, não?

RUBEM: No livro há um capítulo chamado “Ficções”. Como é fazer ficção em um ambiente que deve valorizar a verdade? O Moacyr Scliar tinha muitas histórias de mal entendidos com leitores por causa das “mentiras” publicadas no jornal. Já houve algum problema pra você?

TEZZA: Isso eu percebi logo na minha aventura de cronista: o jornal é o espaço onde se conta a “verdade”. E o leitor muitas vezes espera isso também do cronista. Nunca tive problemas, mas sinto que a ficção, a linguagem literária, tem de ser usada com certa parcimônia no texto da crônica. A crônica, de fato, é um gênero trans-literário – usa a literatura, mas não se confunde com ela.

RUBEM: Antigamente o cronista era sempre um homem da redação do jornal. Vivia o ambiente jornalístico diariamente. Que influências do jornalismo você consegue enxergar na sua crônica mesmo longe da produção do jornal?

TEZZA: A influência de um leitor de jornal, o que fui a vida inteira. A leitura criou em mim uma imagem da crônica, que tento pôr em prática todas as terças. O essencial é a percepção de que o “fato do dia” sempre tem relevância no texto do cronista.

RUBEM: O Miguel Sanches Neto diz que a crônica é pra ele como uma “casa de vidro”, através da qual o leitor consegue enxergar o que se passa na intimidade dele. Como você lida com a exposição natural do cronista em seu texto?

TEZZA: É verdade; todo cronista simula uma certa “intimidade”, pela própria natureza enviesadamente confessional de grande parte das crônicas. Mas tenho a sensação de que acabei criando um personagem, o “cronista”, que não se confunde exatamente comigo. Isso de certa forma me protege.

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