Marina sabe, mas não devia

Posted on 19/06/2013

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Há alguns temas fundamentais em “Eu sei, mas não devia”, coletânea de crônicas de Marina Colasanti: o amor (e o sexo), as artes plásticas, o cinema, os problemas sociais e as viagens. Com esses motes, Marina faz crônicas mais densas do que geralmente se espera no gênero. Certa vez Marina disse em uma palestra que a crônica é “jornalismo bem feito”. A afirmação, bastante exagerada, parece revelar uma maior aderência da escritora ao efêmero e circunstancial – ou seja, suas crônicas estariam mais distantes da literatura.

A julgar pelos textos desta coletânea, é possível perceber semelhanças entre o estilo de Marina e o artigo de jornal – aquele texto opinativo em que se usa argumentos lógicos e coerentes para defender um determinado ponto de vista, geralmente relacionado a atualidades. Artigo de jornal, mas com toda a liberdade e o aparente descompromisso que só a crônica tem. Ainda assim, textos analíticos, que conduzem o leitor a uma conclusão específica tida anteriormente pela escritora. Chega a lembrar de vez em quando as crônicas do Artur da Távola, embora sem tamanho mergulho psicológico.

Os textos são bem escritos e fornecem uma porção de links para quem lê – Marina já disse ser essa uma qualidade que aprecia no gênero da crônica. São referências culturais, históricas, e outras que fazem com que os textos não se resumam ao ego do cronista, mas conquistem maior universalidade. Nem sempre isso é feito da maneira mais atraente, ou mesmo fácil de se ler. E vez ou outra nos vemos perdidos no meio da cultura de Marina.

Como acontece muitas vezes, na parte final do livro estão alguns dos melhores textos. “Quem tiver olhos”, “As hortênsias, a água-viva e o cavalo” e “No trânsito, o amor” são crônicas com tudo aquilo que tem direito, especialmente a observação cotidiana, o relato episódico, a revelação poética, a inserção do cronista na realidade do seu tempo – e os conflitos dessa aproximação, pois o cronista está sempre desejando um mundo diferente. São textos bonitos e maduros, que bem poderiam fazer o mesmo sucesso da crônica-título – esta, também digna de elogios, tem todo o potencial para estourar em correntes e redes sociais.

A própria Marina poderia ser mais conhecida, pois, aparadas alguns diferenças de estilo, seu público parece ser o mesmo que lê as crônicas de Clarice e, atualmente, as de Martha Medeiros. Mas talvez seja necessário um pouco mais para se destacar num gênero já tão cheio de talentos.

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