Livro de mineiro fazendo crônica

Posted on 15/04/2013

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Como se escreve em Minas! Pois um dia, ainda nos anos 80, alguém decidiu juntar todos os mineiros que escreviam crônicas e publicar uma coletânea com duas de cada um. Assim saiu “Crônicas Mineiras”, que conta com participação de gente conhecida, como o Drummond, o Fernando Sabino, o Guimarães Rosa, o Affonso Romano de Sant’Anna. Mas, curiosamente, nenhum deles está entre os destaques do livro. Nem mesmo Paulo Mendes Campos. Quem venceu neste livro foram mineiros mais desconhecidos, como Franklin de Salles, Lúcia Machado de Almeida, Rachel Jardim, e um bem conhecido, mas não pelas crônicas: Ziraldo.

O criador do Menino Maluquinho cometeu “O Haicai”, uma crônica confessional entre as mais emocionantes que já se escreveram nas Gerais e fora delas. E de quebra fez ainda “Reminiscência”, bonito relato do seu passado mineiro e que termina com um surpreendente humor. Rachel Jardim também usou a memória para fazer duas das crônicas mais belas do livro. Parece Clarice no Recife. Lúcia Machado de Almeida escreve parecido e também produziu páginas bem sensíveis. Já Franklin de Salles descreve de maneira descontraída sobre o cotidiano da cidade e suas histórias de amor.

Como não poderia deixar de ser, um livro de crônicas mineiras também conta com muitos causos. Com essa característica, há textos de Ângelo Prazeres, Brasil Borges, Elza Beatriz de Araújo, Márcio Rubens Prado, Drummond e Fernando Sabino. Vários deles são realmente divertidos. Drummond também faz uma crônica difícil de observação do cotidiano. Ivan Ângelo faz uma descrição praticamente braguiana de um episódio observado na rua. E o noticiário, tradicional fonte para a crônica, serviu para inspirar um texto de Affonso Romano de Sant’Anna, os dois de Moacir Andrade (que cria fantasias em cima do jornal) e também os dois de Henfil (certamente as crônicas mais incisivas e irônicas).

Há muito canto de Minas também. Cronistas falando e, em geral, exaltando Minas Gerais. Fernando Sabino, Gilberto Mansur, Danilo Gomes (este faz um tipo diferente de crônica, basicamente histórica, mas cujo resultado acaba sendo a mesma exaltação mineira). E também o Paulo Mendes Campos. É possível dizer que Guimarães Rosa escreveu três crônicas no livro, e uma delas é do Paulo Mendes Campos. Basicamente, trata-se de uma experiência formal em louvor a Minas Gerais. E com a mesma dificuldade de compreensão das crônicas de Guimarães Rosa – as crônicas de Guimarães Rosa são exatamente como se imagina que seriam, e consequentemente impublicáveis em jornais.

Fora isso, há ainda uma boa melancolia num dos textos de Brasil Borges e em Elza Beatriz de Araújo. Affonso Romano fez também uma análise comportamental. Lindolfo Paoliello usou a mulher para fazer o mesmo que os outros fizeram com Minas: cantá-la. O que Fernando Telles fez é crônica só por formalidade, pois no fundo é poema em prosa – e dos difíceis. O poeta Djalma Andrade fez comparação com o passado em meio a versos. Seu filho Odin de Andrade produziu uma alegoria política e uma observação meio lírica de um fenômeno natural.

Estes foram os escritores de “Crônicas Mineiras”, obra que, se não tem os textos mais representativos de todos os cronistas, ao menos indica novos nomes a serem conhecidos no gênero.

Henrique Fendrich

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