30 anos sem o cronista Milton Dias

Posted on 24/03/2013

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Da edição de sábado (23/03) do jornal O Povo:

Miudezas de saudade: 30 anos sem Milton Dias

Há trinta anos, o cearense Milton Dias deixava a vida para eternizar-se em seus escritos, formados por reminiscências e crônicas de evocação às coisas simples. O Vida & Arte relembra sua trajetória

Há exatas três décadas, o Ceará perdia um dos maiores nomes da sua literatura. Milton Dias partiu aos 64 anos, deixando um valioso legado de crônicas. Nascido em Ipu, mas criado parte da infância e juventude em Massapê e em Fortaleza, o escritor era um telúrico descomedido que não se poupava de amor tanto pelo Interior, onde nasceu, quanto à Capital, que o acolheu. Seus textos retratam o cotidiano das primeiras experiências de vida no sertão até as noites boêmias da cidade grande, perpassando também por temas universais, do íntimo do ser humano.

Em Fortaleza, estudou no Colégio Castelo Branco em regime de internato, depois no Colégio Marista Cearense, onde começou a impressionar com o talento para a escrita. Na vida adulta, chegou a fundar os jornaizinhos independentes O Ideal e Alvorada. Milton formou-se em Direito e em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Em Paris, cursou os Estudos Superiores Modernos de Língua Francesa e Literatura e retornou à UFC, dessa vez para lecionar.

Nessa época, ele conheceu a escritora Ângela Gutiérrez, que teve forte influência de Milton na sua formação. Ela foi sua aluna no curso de Letras com habilitação em Literatura Francesa na UFC. “Eu era uma mocinha e meu pai já gostava das crônicas de Milton. Eu o lia e, quando o conheci na universidade, conversávamos muito no ‘Bosque das Letras’. Milton era um conversador incrível, conseguia dominar uma roda imediatamente, as pessoas ficavam fascinadas com a conversa ágil dele. Saber que já faz 30 anos me encheu de saudade”, recorda.

Milton fundou, em 1943, o grupo Clã, importante movimento literário em Fortaleza, composto por escritores da chamada Geração de 45 do Modernismo. O escritor também foi membro da cadeira n° 4 da Academia Cearense de Letras (ACL). Um de seus livros mais representativos é Entre a boca da noite e a madrugada (1971), onde “tanto pôr-do-sol guardei, tanta noite não dormi, tanta insônia cultivei, muita aurora atocaiei, muitas histórias ouvi, algumas delas contei, outras tantas escrevi”, relata o escritor no prefácio do livro.

O jornalista e professor Ronaldo Salgado comenta a relação de Milton com os espaços que o cronista percorria, servindo-lhe de mote para os escritos. “Ele tem toda uma relação com a memória da Cidade, mas ele também ficcionalizava algumas narrativas, mesmo que interligadas com a realidade dele e de Fortaleza. Milton frequentava muito a Praça do Ferreira, estava em contato com a realidade física e metafísica daqui”, explica.

Milton foi cronista do O POVO. Escreveu semanalmente por 29 anos, tratando sobre temas como perdas, solidão, angústias, mas também sobre as pequenas alegrias do dia-a-dia. A postura dualista era o que fazia de sua obra uma literatura universal, apesar das fortes referências às “cearensidades”. “O que chama atenção no estilo dele é a leveza. Ele é um observador da vida com um olhar de ternura para coisas, pessoas e atitudes”, opina o escritor Juarez Leitão.

Causos

No livro Sábado, Estação de Viver, assinado por Juarez, há um capítulo inteiramente dedicado a Milton Dias. São memórias de momentos marcantes na trajetória do cronista, como os famosos saraus de sábado que realizava na sua casa entre as décadas de 1960 e 1980. “Um dia esteve lá o Jorge Amado, que se pronunciou escrevendo que a casa de Milton acolhia amigos honrosos para o deleite da prosa bem regada às guloseimas de Iracema (mãe de Milton) e aos sucos incomparáveis de frutas tropicais que se misturavam aos nobres vinhos e destilados escoceses”, afirma Juarez.

Em 1962, a escritora e ativista Simone de Beauvoir, esposa de Jean-Paul Sartre, esteve em Fortaleza ao lado do marido para conhecer o “maior prostíbulo do mundo”, que ficava localizado na Praia da Leste-Oeste, em Fortaleza. A escritora pesquisava histórias para um livro sobre o tema. Milton Dias acolheu e acompanhou o casal durante as visitas às centenas de cabanas à beira da praia. Lá, conheceram histórias de diversas “profissionais do amor”, como relata Juarez.

Entre as boas memórias, claro, estão as mais engraçadas, como no dia em que Milton foi receber uma homenagem em Lisboa, na década de 1970 e, depois de alguns goles de álcool, teria gritado no salão para as moças: “Queima, raparigal!”, a expressão foi muito bem recebida entre os convidados e Milton caiu na gargalhada. Na verdade, o termo surgiu quando um cabaré na Floriano Peixoto pegou fogo na década de 1930. Outra memória curiosa foi quando, saindo de um jantar no Clube do Náutico, a amiga maestrina Carmem Cavalhedo caiu em uma poça d’água e Milton, prontamente foi ajudar dizendo: “Vou te ajudar, mas a partir de hoje você vai dizer que eu te tirei da lama!”, recorda Juarez.

Quem

ENTENDA A NOTÍCIA

José Milton de Vasconcelos Dias nasceu em Ipu, 1919; e faleceu em Fortaleza em 1982. Foi cronista e professor universitário. Entre seus livros, destacam-se As Cunhãs (1966) e Entre a boca da noite e a madrugada (1971)

Saiba mais

Obras do escritor

Sete-Estrelo (1960);

As cunhãs (1966);

A Ilha do Homem-Só (1966);

Entre a boca da noite e a madrugada (1971);

Viagem no arco-íris (1974);

Cartas sem resposta (1974) ;

As outras cunhãs;

Passeio no conto;

O caso da Capitoa
e outros paleios;

Fortaleza e eu (1976);

A capitoa (1982).

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