Crônicas de novela

Posted on 22/03/2013

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Assim que peguei para ler “A arte de reviver”, coletânea de crônicas de Manoel Carlos, aquele mesmo que é autor de novelas da Globo, pensei com ironia: “Espero que não tenha muitas Helenas por aqui”. Logo na segunda crônica a preferência do autor pelo nome feminino é esmiuçada, mas vejam só: a partir da curiosidade dos leitores, que mandavam e-mails pedindo justamente que ele se explicasse. Mas não são as Helenas que permitem fazer um paralelo entre suas crônicas e suas novelas. São os dramas das histórias de amor, os relacionamentos nascidos sem aliança nem propósito, e que por isso não tardam a terminar, para dar espaço a novos relacionamentos sem aliança nem propósito. Aquilo se vê nas novelas é aquilo que os amigos de Manoel Carlos despejam em cima dele, desejosos de encontrar uma saída para os seus conflitos, e por vezes criando suas próprias teorias de comportamento para se justificarem.

Aparentemente, Manoel Carlos tem um olhar de antropólogo diante das crises amorosas de seus amigos. Ele mesmo vive um casamento de Bodas de Prata – embora seja o terceiro – e acredita no amor pra toda uma vida. Mas seus amigos desdenham do casamento e das posições aparentemente quadradonas, antiquadas e retrógradas do cronista. Manoel Carlos ouve a todos com interesse, discorda bastante, cita versos, dialoga com cada um, e acaba por oferecer o diálogo também ao leitor – e ele realmente busca a presença do leitor em cada texto, e por ele é influenciado, mostrando mais uma vez a importância que o veículo original de divulgação da crônica representa para o gênero.

Manoel Carlos tem uma prosa sobre amor direitinha, bem escrita e fluente, sem as extravagâncias performáticas de um Carpinejar. O problema talvez seja a insistência no mesmo tema, ainda que universal. O livro é dividido em quatro partes, e nas três primeiras não é possível encontrar grandes diferenças entre as crônicas que justificassem essa separação. Na quarta parte, no entanto, o cronista diversifica, e passa a falar de coisas como velhice, amizade, morte, livros, e até a memória pessoal, eterna fonte de crônicas. Talvez seja a melhor parte do livro. Muitas citações ao longo das crônicas também são bem pertinentes. Essa parte final do livro convence que Manoel Carlos é um ótimo cronista entre os atuais, melhor que alguns badalados, e junto com o Walcyr Carrasco mostra que escritor de novela se vira bem na crônica.

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