Rubem Braga: A bicada do sabiá

Posted on 14/05/2012

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Pense em tudo aquilo que já ouviu falar a respeito de Rubem Braga, o “sabiá da crônica”. Provavelmente, a imagem que terá formado dele se aproximará de um “cronista de borboletas e passarinhos”, dotado de grande capacidade lírica, capaz de flagrar a beleza dos momentos mais prosaicos da vida e que “se sai melhor quando não tem assunto”.  Tudo isso é verdadeiro.  No entanto, essa é apenas uma das facetas do cronista – aquela que mais agrada a literatura.

O velho Braga também sabia ser ácido e escrever textos duros defendendo com veemência os seus pontos de vista. Fazia crítica social, denunciava injustiças, combatia governos autoritários – e tudo isso com um espírito independente que não poupava esquerda nem direita. O engajamento de Rubem Braga, inclusive, dita o tom da maioria das suas 15 mil crônicas – poucas publicadas.

Perto do centenário do nascimento de Braga (em 2013), RUBEM conversou com o jornalista e doutor em literatura Carlos Ribeiro para desvendar um pouco mais sobre o lado combativo do cronista. Ribeiro escreveu a sua tese de doutorado justamente sobre esse lado pouco conhecido de Braga. O trabalho deverá se transformar no livro Rubem Braga: um escritor combativo – A outra face do cronista lírico.

Carlos Ribeiro: jornalista fez a sua tese mostrando o lado combativo das crônicas de Rubem Braga. Foto: Ricardo Prado 

Confira a entrevista:

RUBEM: Por que a imagem de um cronista de temas amenos prevaleceu na biografia de Rubem Braga?

Carlos Ribeiro: Em parte porque as crônicas líricas são as mais marcantes e significativas do ponto de vista literário. O lirismo predomina nos textos selecionados pelo próprio Braga para publicação em livro, o que reforça a imagem do cronista “das borboletas e dos passarinhos”. Mas é um grande equívoco acreditar que Braga foi única e exclusivamente autor de crônicas amenas. Podemos mesmo afirmar que a grande maioria das suas 15 mil crônicas, publicadas ao longo de 60 anos de atividade diária, é composta por textos duros, contundentes, denunciativos e, mesmo, panfletários.

RUBEM: E que relação é possível fazer entre esses textos combativos e o lirismo do cronista?

CR: O toque lírico do cronista está sempre presente, mesmo nos seus textos mais contundentes. A meu ver, é o lirismo que potencializa, muitas vezes, o forte conteúdo social presente nas suas crônicas. Um exemplo primoroso disto são as crônicas “Em memória do bonde de Tamandaré” e “Os mortos de Manaus”, mas há casos, aliás, muito mais numerosos nos textos inéditos em livro, em que o fato denunciado se sobrepõe à forma literária. Um bom exemplo disto é a crônica “Os filhos dos torturadores”, publicada na Revista Nacional, em 18 de março de 1979. Nesta crônica, ele comenta a declaração de um torturador, o então delegado do Departamento Estadual de Investigações Criminais, Firmiano Pacheco Neto, que se gabava da sua condição de ex-torturador em entrevista ao repórter Antonio Carlos Fon, da revista Veja. Disse ele: “Gosto do meu serviço. Somos como os lixeiros: ninguém gosta deles, mas todos precisam dos seus serviços. A polícia é o lixeiro da sociedade”. A resposta de Braga a esta afirmação chocou alguns segmentos do governo militar, que chegou a pressionar o jornal no qual colaborava, para demiti-lo. Vale a pena transcrever o trecho final da crônica:

“Apreciamos a franqueza do homem. Lembramos, em todo caso, que o lixeiro pode sentir nojo das coisas com que lida, não das que faz; enquanto o torturador, que tiver um resto de sensibilidade ou consciência, sentirá nojo de si mesmo. Se houvesse um sindicato de lixeiros, ele protestaria contra a insultuosa comparação. O lixeiro faz um serviço penoso, e às vezes repugnante, mas depois toma um banho e vai dormir limpo de corpo e alma. Isso acontecerá também com o delegado Firmiano Pacheco Neto?

Vou dizer uma coisa com sinceridade: faço votos para que o Sr. Firmiano Pacheco Neto não tenha filhos. Conheço pessoalmente casos de filhos de torturadores (não desta ditadura militar, mas da ditadura de Getúlio) que tiveram a infância traumatizada pelo nome de seus pais. Desde a escola, eles foram apontados como filhos de torturadores. E como criança não tem papas na língua, tiveram de ouvir mais de uma vez a acusação direta, feita cara a cara. Sentiram que eram olhados com medo e nojo.

É uma pena que inocentes sejam assim traumatizados pelas atividades criminosas de seus pais.

Seria o caso de sugerir que, neste Ano Internacional da Criança, os 233 torturadores brasileiros, cujos nomes foram publicados, requeressem em cartório mudança de sobrenome de seus filhos. Para evitar que eles cresçam arrastando aquele rabo – aquele rabo sujo de sangue”.

RUBEM: Por que, embora engajado nos textos, o cronista não chegou a ter muitas experiências militantes?

CR: Há aí dois aspectos do temperamento de Braga a se considerar: primeiro, seu profundo ceticismo em relação aos grandes discursos salvacionistas, à esquerda ou à direita. Segundo, sua independência de pensamento. Como lembrou o jornalista Múcio Borges da Fonseca, em artigo publicado no Jornal do Brasil, logo após a morte de Rubem, “Ao lado do raro talento de cronista, seu patrimônio maior como homem e como profissional foi sua indobrável independência de caráter e de atitudes, sua recusa a aderir a igrejas, patotas, partidarismos; ou a aceitar compromissos que lhe anulassem a liberdade e a maneira de ser”. Num período histórico marcado pela polarização e pela radicalização de posicionamentos políticos, ele não hesitava em bater tanto à direita como à esquerda do espectro político. Em artigo, no qual defendia posições nacionalistas, ele externava o seu conceito de Nacionalismo, segundo suas próprias palavras, como algo que deveria ser objetivo, prático, e não místico. “Nada me desgosta mais do que o primarismo dos anticomunistas que veem tudo da Rússia como obra de capetas ou o tom longamente adotado pela ‘Imprensa Popular’ divisando em tudo que é norte-americano corrupção, imperialismo, bestialidade, ignorância”, disse ele. Essa independência lhe renderia muitas críticas e incompreensões, tornando-o uma espécie de “lobo solitário”.

“Ele não hesitava em bater tanto à direita como à esquerda do espectro político.”

RUBEM: Como Braga se comportou em relação ao golpe de 1964 e ao período militar?

CR: Braga sempre foi um homem de esquerda, o que não o impedia de ter um verdadeiro horror ao totalitarismo comunista. Talvez por isto, chegou a escrever, numa crônica publicada quatro meses após o golpe de 64, que considerava este um “mal menor”, fruto do “aventureirismo frenético do Governo João Goulart”. Com a ressalva, entretanto, de que não aprovaria “erros e tolices como a cassação dos direitos políticos de Jânio Quadros, ou de homens como Celso Furtado e Anísio Teixeira”. Bastariam, entretanto, dois meses desse “mal menor”, para que publicasse, no Jornal do Brasil, a seguinte nota sobre o que chama ironicamente de “virtudes militares”.

“Sempre houve no Brasil quem pregasse a necessidade de um governo forte, um governo militar. Só assim poderíamos ter ordem e respeito. Um soldado que fizesse cumprir a lei. As virtudes militares de hierarquia, de disciplina, de obediência – para acabar com a clássica bagunça brasileira.

Ora, não é isso o que vemos. Há no Recife um Coronel Ibiapina que não respeita nem Superior Tribunal Militar, nem Supremo Tribunal Federal, nem general, nem marechal: quem manda é ele, quem prende e quem solta é ele. Aqui no Rio vemos oficiais da Marinha postados em vigilância diante de uma embaixada estrangeira para agarrar um asilado político, sem que o Ministro ouse dar uma ordem contra isso. Em São Paulo, o Capitão dos Portos prende presos políticos 15 minutos depois de soltos em obediência a uma ordem de habeas-corpus. Aqui no Rio o Coronel que dirige o trânsito troca insultos com um delegado subordinado ao Coronel Secretário de Segurança e reboca um carro da polícia.

Além dos violentos, dos arbitrários, dos boquirrotos, há os piores, os que torturam presos políticos. Onde está a ordem, a disciplina, onde está o respeito?

Não, fardar a bagunça não é uma solução. Tivemos mais de um presidente civil que não toleraria nem por um minuto nenhuma dessas exibições de insubordinação”.

RUBEM: O que aconteceu para que o Braga chegasse a ser visto como um comodista nos anos 70?

CR: Atribuo isto ao seu desencantamento, cada dia maior, em relação à atuação política. É visível seu desinteresse, cada vez maior, em relação aos temas políticos e sociais, em detrimento dos chamados “temas amenos”, aos quais você se referiu no início desta entrevista. A incidência da denúncia social é muito maior nos primeiros livros, especialmente em O conde e  o passarinho e O morro do isolamento, que reúnem as crônicas publicadas de 1933 a 1941.

Braga: desencanto político e menos denúncias sociais nas últimas décadas.

RUBEM: Uma Fada no Front é o livro que contém as críticas mais ácidas de Rubem Braga. Mas não foi ele quem selecionou os textos que fazem parte do livro. Em que medida o cronista valorizava os seus próprios textos engajados?

CR: As crônicas de Uma fada no front, selecionadas por Carlos Reverbel, pertencem ao mesmo período de O conde e o passarinho e de O morro do isolamento. Elas foram publicadas em 1939, no curto período em que Braga morou em Porto Alegre. São exemplos claríssimos da atuação crítica do jornalista e do cronista, que não podem ser ignorados. Nelas, Braga ataca comerciantes inescrupulosos que lucravam com a guerra, manifesta desprezo pela ideologia nazista, defende os índios guaranys, os pescadores de Tramandaí e os homens simples e honestos que são explorados pela elite econômica; reivindica uma política de libertação econômica; apoia campanhas em benefício de crianças com fome e a ação da Sociedade Porto-Alegrense de Auxílio aos Necessitados; faz observações sobre o surgimento dos cursos superiores de jornalismo; questiona comentário de Érico Veríssimo de que “O escritor no Brasil pode viver do que escreve”; critica a burocracia para a obtenção do registro profissional de jornalista e denuncia falcatruas da Missão Salesiana do Mato Grosso. Este é, certamente, o volume de crônicas que melhor revela a faceta combativa de Rubem Braga, em sua vertente social.

Agora, quando nos aproximamos do centenário de nascimento do nosso cronista-mor, que acontecerá em 2013, é importante redimensionarmos a figura e a importância dela no panorama da literatura, da história e do jornalismo contemporâneos. Braga escreveu sobre quase todas as questões relevantes do seu tempo. Foi censurado, preso e perseguido durante a maior parte da sua extensa atuação profissional. Combateu, incansavelmente, todo tipo de violações aos direitos humanos, antecipando-se a muitas conquistas obtidas no Brasil, no século XX. Foi, portanto, muito mais que um cronista de temas amenos. É isto que procuro mostrar no livro, ainda inédito, Rubem Braga: um escritor combativo – A outra face do cronista lírico, fruto da minha tese de doutorado.

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